Santos, 17 de janeiro de 1882. O navio "Colombo" acaba de chegar da Europa lotado de passageiros mas ainda mais de esperanças. Entre todos aqueles que desembarcaram e pela primeira vez pisaram o solo nacional estava Caetano Tozzi, o primeiro dentre os italianos a se registrar nos serviços brasileiros de imigração. Assim como as centenas de milhares de seus patrícios, Caetano trazia uma enorme vontade de trabalhar.
E ela seria mesmo necessária. A abolição da escravatura andava a passos largos e já se sabia que, mais cedo ou mais tarde, ela seria assinada, o que viria a acontecer seis anos depois. O País precisaria, então, de uma nova mão-de-obra, e nada melhor que esta fosse a dos europeus e, sobretudo, a dos italianos, que chegavam ao Brasil trazidos pela boas novas de que, aqui, em se plantando tudo dava.
A vida de nosso personagem não foi melhor nem pior do que a da maioria dos "oriundi", como eram conhecidos os italianos que deixavam sua pátria. Nos quase 50 anos em que viveu no Brasil, este imigrante pôde mostrar o espírito aberto às coisas de nosso País sem deixar de lado o amor pela velha, querida e então já distante Itália.
Mas houve um único detalhe, um pequeno item que marcou para sempre o nome de Caetano Tozzi e de uns poucos outros italianos: empresário, ajudou no parto da industrialização nacional; em troca, 15 anos antes de morrer, teve o orgulho de poder ser um dos fundadores do Palestra Itália. Ele não foi o único, é verdade, mas foi um deles.
Muito Semelhante à história de Caetano Tozzi é a dos italianos que se agrupavam, no começo do século, para matar, ou melhor, para amenizar as saudades da Itália. Todos os domingos, eles lotavam o Teatro São José para assistir a espetáculos líricos, que depois cantarolavam, ao entardecer, nos bondes de uma São Paulo, à época, ainda envolta em neblina e constantes garoas. Mas nem só de música vivia a colônia; o esporte também aparecia com destaque entre os "oriundi".
Em 1914, o hoje nacionalmente conhecido Clube Espéria se chamava "Societá dei Canottieri" (Sociedade dos Remadores). Lá, se jogava a bocha e, como dizia o próprio nome, se praticava o remo. Mas o futebol começava a despertar paixões, já que há muito era praticado na Itália com o nome de "calcio".
Quatro italianos - Luigi Cervo, Ezequiel De Simone, Luigi Emanuelle Marzo e Vicenzo Ragognetti - eram os mais animados dentre aqueles que moravam no então totalmente italiano bairro do Brás. Eles se encantaram com a visita do Torino e do Pro Vercelli, times do futebol italiano, e resolveram que os filhos da Itália e os filhos dos filhos da Itália também precisavam de uma equipe de futebol.
Mal o Torino e o Pró Vercelli embarcaram de volta à Itália e os quatro italianos — Luís Cervo, Ezequiel Simone, Luís Emanuelle Marzo e Vicente Ragonetti — arregaçaram as mangas no intuito de fundar o clube com o qual tanto já sonhavam. Não haveria mesmo momento mais propício, já que toda a comunidade italiana se encantara com a presença das duas equipes patrícias.
Na época, circulava em São Paulo um jornal, o "Fanfulla", órgão oficial e porta-voz voltado aos italianos que trazia, sempre, notícias da Velha Bota. Como Ragonetti era um de seus fundadores, não teve dúvidas em conclamar a presença de todos os conterrâneos na edição do dia 19 de agosto de 1914. O texto era o seguinte: "Todos os quais desejarem participar da criação de um clube italiano de calcio (futebol) devem comparecer às 20h00 no número 2 da Rua Marechal Deodoro para a reunião de fundação do Palestra Itália". O nome do clube, como se vê, já estava decidido antecipadamente.
Muito se esperava, mas pouco se conseguiu. Muitos pensaram que o clube teria, como os outros da época, recitais e bailes. Mas não: os quatro rapazes estavam decididos que o carro-chefe do Palestra Itália seria o futebol, e disso não abririam mão. Após muita discussão e o impasse a que se chegou, foi desfeito o engano. Os descontentes e decepcionados se foram, e uma nova reunião foi marcada para a semana seguinte, dia 26 de agosto de 1914.
Nela, enfim, seria fundado o Palestra Itália. Mas esta já é uma história para contarmos no próximo capítulo.
Foram seis longos dias de muita expectativa. Os quatro rapazes - Cervo, Simone, Marzo e Ragonetti - mal puderam esperar até que chegasse aquela data. Mas, enfim, o sol nasceu em 26 de agosto de 1914, uma quarta-feira que entraria para a história do futebol brasileiro e mundial. Exatamente na hora marcada, estavam presentes ao número 2 da Rua Marechal Deodoro exatas 46 pessoas, hoje consideradas as fundadores do clube.
É verdade: esperava-se mais gente. Mas ao menos tinham os quatro jovens a certeza de que aqueles outros 42 homens sabiam exatamente o que poderiam esperar do Palestra Itália - pelo menos em seu início, esta seria uma agremiação de calcio. Ou de futebol, como chamavam-no os brasileiros.
Muita alegria, gargalhadas e confraternização, um bom vinho para brindar mais um "oriundi" que nascia mas...E o dinheiro? Em meio à paixão característica do italiano, este detalhe fora relegado a segundo plano. O mais importante era fundar um clube. Só que, feito isso, o que era secundário passou ser primordial. E se percebeu, então, que havia pouco, ou quase não havia.
Claro que a honra de se tornar o primeiro presidente do Palestra Itália caberia a um dos quatro principais batalhadores do seu surgimento. Daí o grande problema que herdou, um segundo após ser eleito, Ezequiel Simone. Não bastassem os bolsos vazios, aquele italiano se viu às voltas também com uma série de conflitos de interesses, já que todos os 46 sócios-fundadores se julgavam no direito - e de fato o tinham - de fazer valerem suas opiniões particulares.
Pressionado, sem alternativas e sentindo rasgar sua pele a solidão à qual o poder muitas vezes relega aqueles que o detêm, a verdade é que Ezequiel Simone permaneceu no comando por apenas 19 dias, cedendo seu posto a Augusto Vicari.
Lá fora, o mundo fervia. Ainda que à distância e com poucas informações, já que os meios de comunicação não tinham nem um ínfimo da potência que hoje possuem, sabia-se que toda a Europa estava envolta numa disputa bem menos nobre do que a da presidência do Palestra Itália: a Primeira Guerra Mundial.
A Itália lutava contra o kaiser alemão Guilherme II, mas a força do general germânico era muita. Tanta, que o governo não teve outra alternativa senão recrutar italianos espalhados por todos os cantos do mundo a também defenderem as cores de sua pátria. E, italiano legítimo, Vacari não fugiu à regra: arrumou suas poucas malas e embarcou num navio, fazendo o caminho de volta tão pouco tempo depois de ter chegado. Em seu lugar no Palestra assumiu Leonardo Paseto.
Mas, se a falta de dinheiro do novo clube já era enorme antes da guerra, após sua instalação aumentou ainda mais. Tudo porque a colônia deixou de enviar ao Palestra os fundos que costumeiramente fazia. Não eram muitos, mas eram alguns. Tal dinheiro passou a ser enviado à Cruz Vermelha e à Pró-Pátria, instituições que ajudavam a Itália a enfrentar os poderosos canhões alemães.
Desesperado, vendo-se sem saída e sem fundos até mesmo para o pagamento das contas de água e luz, Paseto chegou à conclusão de que o melhor para todos, inclusive para o Palestra, seria a sua morte. Dali a pouco, acreditava, a guerra terminaria e, então, todos se reuniriam para ressuscitar o querido clube e o tornar grande e forte.
Mas não era desta forma que um dos idealizadores, Luís Cervo, pensava. Quase sempre calado, ele resolveu intervir de forma mais direta, como nunca fizera antes. Um murro na mesa e o juramento de que o Palestra não iria morrer, que o seu ideal e o dos outros três jovens imigrantes - Ragonetti, Marzo e Simone - haveria de vingar. "Uma partida de futebol! Temos que organizar uma partida de futebol!", gritou Cervo. "Assim mostraremos que estamos vivos e que seremos grandes!", concluiu.
Cervo estava certo, suas palavras não poderiam ter sido melhor escolhidas.
Mais importante do que não deixar o Palestra morrer com pouco mais de quatro meses de vida era fazer do primeiro jogo de futebol de sua história um marco fundamental para o futuro do clube. A partida que seria a primeira do clube teria, claro, de ser vencida. Afinal, como convencer a colônia e boa parte dos fundadores de que o Palestra Itália mereceria uma nova chance se, logo de cara, uma grande derrota surgisse.
Porém, a grandiosidade estava mesmo nos planos desta grande paixão. Assim, escolhido o adversário, o Savóia, clube da colônia italiana na cidade de Sorocaba - que, é bom frisar, de fraco nada tinha - tratou-se então de se treinar, e muito, para que um grande papel fosse feito. A fim de chamar a atenção de todos os patrícios da região, ficou acertado que tudo o que se arrecadasse seria entregue à Cruz Vermelha italiana. Assim foi dito e assim foi feito, com a entidade beneficente recebendo 200 contos, uma fortuna na época.
Domingo, 24 de janeiro de 1915. Aquela tarde entrou definitivamente para a história não só do Palestra/Palmeiras, mas também de todo o futebol. Foi exatamente às 15h00 que o primeiro time do Palestra entrou em campo. Os 11 heróis que vestiram a camisa azul com a faixa branca, levando sobre o coração o distintivo contendo a cruz da Casa Real de Savóia, foram Stilittano; Bonato e Fúlvio; Police, Bianco e Vale; Cavinatto, Fiaschi, Alegretti, Amílcar e Ferré.
Em campo, nada de muito amigável apesar de se tratarem de duas equipes italianas. Jogo duro, disputado, mas que quiseram os deuses do futebol acabasse sendo vencido pelos italianos do Palestra e não pelos italianos do Savóia. O placar de 2 a 0, construído através dos gols de Bianco e Alegretti, deu um novo sopro de vida ao Palestra, pouco antes fadado ao esquecimento.
De fora, olhos lacrimejando de emoção, sabor de vitória e de dever cumprido, estava Luís Cervo. Ele sabia que, dali em diante, seria impossível acabar com o clube que ele e muitos outros, apesar do pouco tempo, já tanto amavam. Dali em diante, o Palestra pensaria grande porque seria grande, e o próximo passo seria a filiação junto à APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) a fim de disputar o Campeonato Paulista.
Pensavam os palestrinos que a vitória sobre o Savóia seria suficiente para que a entidade que regia o futebol paulista da época, a APEA, (Associação Paulista de Esportes Atléticos) aceitasse o clube em seu campeonato. Afinal, o time vencera de forma impoluta e nobre um adversário cujas qualidades ninguém ousava discutir.
Mas se enganaram os palestrinos. No momento da filiação, exigiu a APEA mais uma missão ao Palestra Itália. E com o detalhe: desta vez, o adversário teria de ser de ponta. A entidade tinha como objetivo fortalecer o torneio que organizava, e para tanto não poderia permitir a entrada de qualquer equipe que não fosse, a seu ver, digna de tal mérito.
Assim a APEA exigiu e assim o Palestra Itália tratou de fazer. Um amistoso com o Santos, considerado um bom time de então, seria a prova de fogo. Se vencêssemos, as portas do Campeonato Paulistas nos estariam abertas; mas se não vencêssemos...
Não vencemos. E pior: perdemos de forma humilhante, levando de 7 a 0 do time da Vila Belmiro. Não que a equipe do Palestra fosse ruim, muito pelo contrário; o problema é que a estrutura do Santos, que na época já contava com três anos de existência (o clube foi fundado em 14 de abril de 1912) era infinitamente superior à nossa. Afinal de contas, nem o primeiro aniversário havia completado o Palestra Itália.
Terminada a partida, o desespero tomou conta dos palestrinos. Disputar o Paulistão seria fundamental para que o clube se fortalecesse, ampliasse ainda mais os laços com a colônia, inscrevesse de vez seu nome no noticiário esportivo da Cidade. Mas nem os insistentes e inclementes apelos sensibilizaram os dirigentes da APEA, que como prometeram vetaram a participação do Palestra Itália no Campeonato Paulista de 1915. E mais: não deram nenhuma esperança de que o quadro se reverteria em breve. E agora? O que fazer? Como manter vivo um time de futebol se o único campeonato em que ele pode figurar sua presença é proibida?
Mas diz o ditado que a sorte está sempre do lado daqueles que trabalham.
Não se pode negar que o abatimento foi mesmo geral. Embora no coração de cada palestrino estivesse ainda muito viva a certeza de que dias melhores viriam, estes pareciam distantes e, pior, sequer tinham data certa para chegar. A única solução, diante da impassividade da APEA, seria o Palestra Itália ocupar a vaga de umclube que já tivesse sua presença garantida no Campeonato Paulista de 1916. Mas quem desistiria disso?
O Wanderers. Ou melhor, desistir o time de origem inglesa não desistiu, mas foi, digamos, "forçado a desistir" pela entidade que regia o futebol paulista. Vale lembrar que nos primeiros anos do salignculo o futebol não era, pelo menos oficialmente, um esporte profissional - algo que só se tornaria bem depois, em 1933. Assim, qualquer tipo de remuneração, por menor ou mais simbólica que fosse, era proibida no país.
E o Wanderers pagou seus jogadores por uma vitória. A história não registra qual foi o valor do prêmio e nem se ele se fez em forma de dinheiro, mas o fato align que os dirigentes da APEA descobriram e, como punição, desfiliaram o clube de seus quadros. pronto: surgia a vaga de que tanto precisava o palestra Itália.
Assim que tomaram conhecimento da desfiliação do Wanderers, dirigentes do palestra foram ate a sede da APEA, mais uma vez, pleitear a vaga. Mesmo a contragosto, a entidade aceitou a entrada palestrina na competição, não só por reconhecer a insistência daqueles senhores italianos mas tambalignm por não ter outra forma para preencher a lacuna deixada pelo antigo disputante.
Faltou vinho tinto naquela São Paulo, então uma espécie de pequena Itália. A colônia estava em festa, já que seu filho mais querido estrearia num campeonato de ponta.
Evidentemente, a emoção tomava conta dos palestrinos e aumentava a cada dia que passava. A estréia no Campeonato Paulista de 1916 seria contra o Mackenzie, na época uma dos mais importantes clubes do Estados e que rivalizava com o Paulistano na condição de melhor time do futebol paulista.
Os dias foram passando até que chegou a tão esperada data de 13 de maio de 1916. Naquela tarde, esperava-se um passeio do Mackenzie sobre o Palestra, dadas as brutais diferenças entre os dois times, seja no aspecto técnico, seja no quesito estrutura. Mas o que se viu em campo foi um time palestrino que, embora consciente de sua inferioridade, teve garra de sobra para se ombrear ao gigante que tinha pela frente. O resultado final, um heróico empate em 1 a 1, com gol palestrino feito por Vescovini, surpreendeu a todos: afinal, até onde poderia chegar aquele Palestra Itália que só disputava o Campeonato Paulista graças à desfiliação do Wanderers?
Na verdade, o Palestra não poderia chegar muito longe. O primeiro resultado, o primeiro ponto, fizeram com que a esperança fosse ainda mais verde do que a camisa, mas a realidade era bem diferente. O desempenho do time no restante daquele campeonato foi bastante tímido: no total, obteve o Palestra três vitórias, dois empates e sete derrotas nos 12 jogos que disputou. O ataque até que esteve bem, marcando 19 gols, mas a defesa deixou muito a desejar: levou 23 bolas em suas redes.
Tal campanha só foi superior à feita pela Associação Atlética das Palmeiras, última colocada no certame, com 6 pontos, dois a menos do que o Palestra Itália. Naquele ano, o título acabou ficando com o Paulistano, que na partida decisiva goleou o Santos por 5 a 2.
Mas a má campanha não abateu os palestrinos. No fundo, todos sabiam que o time apenas iniciava uma história dentro do Campeonato Paulista, e que esta história seria, mais cedo ou mais tarde, recheada de glórias.
Apesar do noviciado, terminar o primeiro Campeonato Paulista de sua história em penúltimo lugar feriu os brios dos italianos e também dos brasileiros que, desde então, igualmente já simpatizavam com o Palestra Itália. Assim, para não fazer feio no ano seguinte, a diretoria investiu – ainda que na época o futebol fosse ainda totalmente amador - e trouxe para o quadro nomes de peso, como Ministro, Bertolini, Martinelli e Heitor, este até hoje o maior artilheiro da história palestrina/palmeirense, com mais de 200 gols.
E o desempenho glorioso que se esperava naquele Paulistão pôde ser sentido antes mesmo de seu início: em um amistoso contra o Paulistano, campeão do ano anterior, disputado em 18 de março de 1917, uma vitória alviverde por 3 a 2. "Chegou a nossa hora!", vibraram os palestrinos.
Quase. De fato a campanha palmeirense foi além da que poderia esperar seus mais fervorosos torcedores: apenas uma derrota em 16 partidas disputadas, das quais o Palestra ganhou 10 e empatou outras cinco. E mais: no jogo pra valer, válido pelo campeonato, em 26 de agosto daquele ano, dia em que o clube completava seu terceiro aniversário, eis que todos ganham um grande presente: mais uma vitória sobre o todo-poderoso Paulistano, desta vez por 1 a 0, gol de Caetano. Mas, apesar da glória de ganhar duas vezes do melhor time da época, no final o Palestra ficou dois pontos (25 a 27) atrás do rival, que mais uma vez faturou o título.
Houve, porém, um detalhe naquele Campeonato Paulista de 1917 que, sem exagero, valeu aos palestrinos quase como as faixas que foram enfeitar os peitos dos paulistanos: pela primeira vez, houve um Palestra Itália x Corinthians.
Isso se deu porque, embora ainda incipientes, ambos já desfrutavam de grande apelo popular. Nem mesmo o Paulistano, bicho-papão daquele início de século, conseguia ter tantos torcedores quanto o alvinegro e o alviverde. Daí a rixa, a briga para saber quem era o melhor. E nada melhor do que um jogo pra valer, válido pelo Campeonato Paulista, para pôr fim de uma vez por todas às discussões que dominavam as esquinas da então provinciana São Paulo.
Assim, se fora de campo já existia, dentro dele a rivalidade entre palestrinos e corintianos nasceu exatamente às 15h45 da ensolarada tarde de 6 de maio de 1917, quando o árbitro Octávio Bicudo apitou o início da partida no Parque Antártica. Campeões do ano anterior pela Liga Paulista de Futebol (o outro campeão fora o Paulistano, pela Associação Paulista de Esportes Atléticos), os corintianos - que tinham Neco, uma das grandes estrelas da época - davam como certa a vitória. Afinal, do outro lado estava apenas um grupo de inexperientes "italianos".
De fato, o desenrolar do jogo seria mesmo bem favorável ao Corinthians não fossem os reforços que o Palestra trouxera para a disputa daquele campeonato: Ministro, Bertolini, Martinelli e Heitor. Com os quatro e mais alguns que estavam no clube desde a sua fundação, (como Bianco, autor do primeiro gol da história do Palestra Itália), a equipe ficou forte o suficiente para enfrentar os campeões de São Paulo de igual para igual.
O primeiro tempo começou com os homens de camisa verde pressionando o adversário e criando boas chances. Mas as conclusões quase sempre deixaram a desejar e, quando isso não aconteceu, foi o goleiro corintiano Achiles quem evitou o gol palestrino. Aos poucos, o Corinthians foi equilibrando as ações e também passou a ter bons momentos, mas igualmente seus atacantes não pareciam estar em tarde das mais felizes. Assim, o 0 a 0 do primeiro tempo fez justiça aos que se viu em campo.
Durante o intervalo, as discussões das esquinas paulistas se mudaram para as arquibancadas do Parque Antártica. Quem, afinal, era o melhor? Mas a dúvida durou mesmo apenas 15 minutos, pois o segundo tempo do clássico foi mais verde do que poderia sonhar o palestrino e temer o corintiano.
Porém, não foi nenhum dos quatro craques contratados pela diretoria palestrina o escolhido pelos deuses do futebol para ser a grande estrela do jogo. O ponta-direita Caetano foi o dono do jogo. Aos 15 minutos da etapa final, ele abriu o placar para o Palestra Itália, assim descrito pelo jornal "Correio Paulistano" na edição do dia seguinte: "No começo do segundo half-time, tudo parecia indicar que o desfecho da pugna seria o mesmo do primeiro tempo. Decorridos, porém, 15 minutos de arremetidas e defesas, quase todas bem feitas, Caetano, extrema-direita do Palestra, recebe a esfera e, num belo rush, aproxima-se do goal contrário e, ainda um pouco distante, desfere um fortíssimo shoot enviesado ao retângulo defendido por Achiles".
O mesmo Caetano, em tarde que haveria de fazer inveja a Garrincha, balançaria as redes corintianas por mais duas vezes naquela tarde, aos 25 e aos 44 minutos. A vitória valeu a conquista da liderança, deixou os corintianos inconformados, mas isso foi o que menos importou.
Ao final do jogo, nas esquinas paulistanas já não mais se discutia quem era o melhor.
Ficha TécnicaJogo: Palestra
Itália 3 x 0 Corinthians
Data: 06/05/17 - Horário: 15h45
Local: Parque Antártica, em São Paulo (SP)
Árbitro: Octávio Bicudo
Gols: Caetano aos 15, aos 25 e aos 44 minutos do segundo
tempo
Equipes
Palestra Itália - Flosi; Bianco e Grimaldi; Picagli, Bertolini e
Fabbi; Caetano, Ministro, Heitor, Orlando e Martinelli.
Corinthians: Achiles; Adelino e Casemiro; Ciasea, Plínio e
César; Américo, Marconi, Amílcar, Aparício e Neco.
Embora passado apenas pouco mais de dois anos da estréia do Palestra Itália no Campeonato Paulista, uma certeza todos os seus adversários já tinham: aqueles italianos não estavam ali apenas por diversão. O desejo de grandeza e o gigantismo nato palestrinos eram flagrantes e, assim, o time já se tornara um rival à altura dos poderosos do futebol de então.
Por isso, não foi surpresa o advento de arbitragens tendenciosas contra o Palestra, que se tornaram indiscutíveis no Paulistão de 1918. Como no ano anterior, a equipe disputava o torneio organizado pela APEA, mas a "roubalheira" tornara-se insuportável. Tanto que em 30 de junho de 1918, quando enfrentava o Paulistano no campo do Jardim América, o Palestra se indignou com um pênalti marcado para o adversário, lance que a Imprensa da época considerou absurdo. Inconformado com o que considerou uma afronta às suas cores, a diretoria do Palestra Itália resolveu abandonar o campeonato.
Três meses mais tarde, através da intervenção do presidente da Associação dos Cronistas Esportivos, Olival Costa, o Palestra Itália foi de novo aceito pela entidade, mas não teve a permissão para voltar a disputar o Campeonato Paulista. Assim, de setembro a dezembro de 1918, só restou à equipe realizar amistosos.
Contudo, tal entressafra não foi tão prejudicial. Ao contrário, serviu ao Palestra para ganhar forças visando o Paulistão do ano seguinte.
Mesmo tendo apenas cinco anos incompletos de vida, a obsessão palestrina por um título já era total. E o ano de 1919 começou de forma animadora, com dois de seus jogadores - Bianco e Heitor - levantando a taça de campeões sul-americanos pela Seleção Brasileira em 29 de maio, numa vitória sobre o Uruguai por 1 a 0, no campo das Laranjeiras (Rio de Janeiro).
A campanha no primeiro turno foi impecável: em 20 pontos disputados, apenas um ponto perdido - para o Paulistano, num empate por 1 a 1. Tudo indicava que o título poderia vir, já que Palestra Itália, Paulistano e também o Corinthians (o primeiro trio-de-ferro do futebol de São Paulo) disputavam a liderança da tabela rodada a rodada.
O problema é que quanto mais equilibrado o campeonato, maior o preço a ser pago quando nele se perde pontos. E o Palestra Itália, tão jovem, não aprendera ainda tal lição. Resultado: dois tropeços seguidos, justamente frente aos dois rivais (0 x 1 Corinthians e 1 x 2 Paulistano), ambos dentro do Parque Antártica, fizeram com que o sonho das faixas fosse mais uma vez adiado. No fim das contas, Paulistano de novo campeão. E Palestra de novo vice-campeão.
Mas existe um ditado que diz: "Se não há bem que nunca se acabe, também não há mal que sempre dure". No próximo capítulo, você vai saber como o Palestra Itália, enfim, ganhou o primeiro título de sua história.
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A I Guerra Mundial acabara há pouco e o mundo ainda se convalescia das feridas por ela causadas mas, claro, se aliviava com o fim do martírio. No Brasil, mais especificamente em São Paulo, a colônia italiana tinha mais um motivo para comemorar: 1920 prometia ser o ano da redenção palestrina. Mas por pouco, muito pouco mesmo, não foi aquele ano mais um de muita frustração para o Palestra Itália. É que de nada adiantou o protesto e a saída do Campeonato Paulista do ano anterior - os roubos contra a equipe continuaram implacáveis. A determinação daqueles jovens idealistas que jogavam por amor à camisa era tanta que, mesmo assim, o Palestra seguia liderando a tabela e, consequentemente, cada vez mais perto do tão sonhado título. Houve uma partida, porém, que extrapolou qualquer limite de justiça. Jogavam Palestra Itália e Corinthians no Parque Antártica naquele domingo, 5 de setembro de 1920. Os corintianos abriram o placar, e os palestrinos contestaram, alegando falta do ataque adversário. Pouco depois, 2 a 0 para o Corinthians, noutro lance bastante confuso e discutível. Novas reclamações, o jogo se reinicia e após uma defesa o goleiro palestrino Primo se choca com o craque alvinegro Neco que, em seguida, o agride a pontapés. Fechou o tempo. O que se viu a seguir foi uma verdadeira batalha campal, que só terminou com a intervenção da Polícia. Contudo, o pior ainda estaria por vir: como se nada tivesse visto, o árbitro Odylon Penteado do Amaral não expulsou Neco, pivô de toda a confusão, o que indignou ainda mais os palestrinos. O Palestra Itália ainda teve tempo de diminuir o marcador, mas a derrota de 2 a 1 revoltou seus torcedores, que em protesto depredaram o Parque Antártica. Mais indignados ficaram os dirigentes do Palestra, que logo no dia seguinte resolveram, após reunião da diretoria, mais uma vez solicitar à Apea a saída da competição. "Se é para ser prejudicado, então nosso clube se despede mais uma vez do campeonato", disse o presidente palestrino, David Pichetti. A Apea já havia concedido a licença no ano anterior e, temendo que isso se tornasse prática toda vez que um time se julgasse prejudicado pela arbitragem, resolveu negar, contando com o apoio das outras oito equipes participantes, o pedido alviverde. Ou melhor, deixou bem claro na nota oficial que enviou ao clube: "Se o Palestra Itália se retirar do Campeonato Paulista de 1920, não terá seu lugar garantido para o torneio do ano que vem". Não houve outro jeito senão continuar na competição. Mas então os jogadores se reuniram e juraram que, contra tudo e contra todos, o Palestra Itália seria campeão naquele ano. De fato, a campanha continuou excelente e, terminado o segundo turno, Palestra Itália e Paulistano viram-se incrivelmente empatados em tudo: 26 pontos, 12 vitórias, dois empates e duas derrotas. E se o ataque paulistano havia sido melhor (61 contra 53 gols) sua defesa fora bem pior (19 gols contra 7 dos verdes). O Corinthians? Bem, o Corinthians ficou apenas em terceiro lugar, um ponto atrás. Mandava o regulamento que em caso de duas equipes terminarem empatadas o título seria decidido em um jogo-extra. E ele foi marcado para 19 de dezembro, no neutro campo da Floresta. Todas as atenções do Palestra estavam voltadas para Artur Friedenreich, um mestiço filho de alemão e negra que era o melhor jogador de futebol do mundo naquele época. Mas o Paulistano era muito forte, lutava pelo pentacampeonato e mesmo contra um adversário com os brios feridos era considerado favorito. Do outro lado, todavia, estavam aqueles italianos, contra os quais tanto se tentara e tanto se fizera para que não estivessem ali, disputando a condição de melhor time de São Paulo. Depois de um primeiro tempo bastante equilibrado, na etapa final o jogo começou quente: logo aos 5 minutos, Martinelli acertou um forte chute no gol defendido por Arnaldo e colocou o Palestra Itália na frente. A alegria verde, porém, durou pouco: apenas um minuto depois, quando a defesa palestrina se preocupava com o mulato genial, Mário aproveitou para, livre, deixar tudo igual. Daí em diante, chances perdidas pelos dois times mas, também, respeito mútuo prevalecendo em campo. Até que aos 32 minutos da etapa final, Forte se livra da marcação e toca para o fundo das redes paulistanas. Os 13 minutos restante foram de intensa pressão do Paulistano, mas o goleiro Primo - ora com talento, ora com sorte - conseguiu evitar mais um empate. Ao apito final de Hermann Friese, São Paulo explodiu de alegria. O sonho, enfim, se realizara: Palestra Itália, campeão paulista de 1920! Na São Paulo às vésperas do Natal, faltou vinho tinto para tanta festa.
Ficha Técnica |
Vimos no capítulo anterior que em 1920 aconteceu a redenção palestrina, pois em dezembro daquele ano, finalmente, o time conquistou o seu primeiro título paulista, com o qual sonhara desde quando fora fundado, em 1914. Mas 1920 tem também uma outra razão para entrar para a história do Palestra Itália.
Para explicar o porquê, precisamos, porém, voltar um pouco no tempo, mais precisamente a 1885. Foi na Avenida Água Branca, Freguesia de São Geraldo das Perdizes, distrito de Santa Cecília, que naquele ano a Companhia Antarctica Paulista iniciou suas atividades na produção de cerveja e refrigerantes.
Durante 20 anos - até, portanto, 1905 - a fábrica por ali permaneceu, ajudando no desenvolvimento de São Paulo e na transformação da cidade no maior polo industrial do País. Dali, mudou-se para o bairro da Mooca, na Zona Leste da Capital, onde aliás funciona até hoje. Mas manteve o local como centro de lazer e recreação, construindo inclusive um campo de futebol.
Você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o Palestra Itália, mas saiba que a história desta empresa de bebidas no Brasil está intimamente ligada à do clube do Parque... Antártica. Isso mesmo: a forma como também é conhecido o estádio do Verdão não tem esse nome por acaso.
É que no dia 27 de abril de 1920 a Antarctica vendeu o terreno da Água Branca à então Società Palestra Itália. O time, como você já deve ter notado, mandava seus jogos no campo que existia dentro do terreno da empresa, e decidiu assim comprá-lo para que o Parque Antarctica se tornasse definitivamente a sua casa.
O preço, porém, foi bem salgado: 500 contos de réis, que se transformou num dos maiores negócios imobiliários da época e que mostrou a confiança da empresa em relação à pujança do Palestra Itália. Na verdade, aquela foi uma das primeiras parcerias do esporte brasileiro, que inaugurou, pioneiramente, os contratos de merchandising entre clubes e empresas no Brasil.
O negócio deu tão certo que, anos mais tarde, a linha média do Palestra Itália que se sagrou tricampeã paulista, formada por Pepe, Goliardo e Serafini, foi apelidada de Sissi, Gasosa e Guaraná, produtos que a Antarctica vendia na época e que eram gritados pelos vendedores nas arquibancadas.
Através dos tempos, a Antarctica tem permanecido como exclusivo fornecedor de cervejas e refrigerantes para os bares, restaurantes e boate do clube. E quando o jogo é no Parque Antártica (assim mesmo, com o acento e sem o "c", como manda a ortografia atual), o palestrino/palmeirense sabe que o jogo, mais do que nunca, é em sua casa.
Um grande clube se faz com grandes ideais mas principalmente com grandes homens. Por isso, uma enorme injustiça se faria em "Nossa História" se faltasse um capítulo dedicado a um italiano chamado Francesco Matarazzo.
Em 1882, numa das primeiras levas de "oriundi" a desembarcar no porto de Santos, estava o jovem Francesco, então com 27 anos. Apesar da esperança de dias melhores, as coisas não começaram muito bem para ele: o barco que carregava os produtos que trazia da Itália para iniciar sua vida comercial no Brasil afundou, deixando-o no mais completo prejuízo.
Francesco, porém, não desanimou. Seguiu então para Sorocaba, no Interior de São Paulo, onde abriu seu primeiro negócio: uma "venda", espécie de estabelecimento onde de tudo se encontrava. Deu tão certo que ele enriqueceu, e no começo do século 20 mudou-se para São Paulo juntamente com os irmãos Andrea, Luigi e Giuseppe.
Com tino comercial e empresarial admiráveis para a época, comandou seus negócios de modo que a prosperidade se tornou algo corriqueiro em sua vida. Tanto que, em 1917, ganhou do rei da Itália, Vittorio Emanuelle, o título de Conde. E foi já como Conde Francesco Matarazzo que ele, em 1921, pôde ajudar o clube que tanto amara desde que vira nascer, sete anos antes.
Você se lembra de que no capítulo anterior recordamos como foi a compra do Parque Antártica pelo Palmeiras, em 1920. Pois bem: no ano seguinte, com as notas promissórias sempre muitas e o dinheiro sempre pouco, a diretoria palestrina precisou de fundos para saldar o compromisso assumido e lhe vendeu parte do terreno que comprara da Cia. Antarctica Paulista. Lá, Matarazzo construiu uma das 365 indústrias que, até os anos 50, teria espalhadas por todo o Brasil, formando o conglomerado IRFM - Indústrias Reunidas Francesco Matarazzo. Hoje, no local onde funcionava a fábrica, existe um Shopping Center.
Por este fato e também por todo o amor que sempre dedicou ao Palestra/Palmeiras, a figura do Conde Francesco Matarazzo estará para sempre ligada à "Nossa História".
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Já tivemos a oportunidade de contar, no capítulo 11 de "Nossa História", como teve início a rivalidade entre Palestra Itália e Corinthians. Agora, chegou a vez de ilustrarmos esta eterna rixa entre os dois clubes mais populares do Estado de São Paulo. E um bom exemplo disso acorreu no Campeonato Paulista de 1921. Antes, porém, de contarmos como o Verdão ajudou o Corinthians a perder mais um título, vale lembrar que nosso time chegou ao final daquele Paulistão fora da briga pelo título de forma meio estranha e bastante injusta. Aquele campeonato ficou marcado pelo que se chamou de "caso dos 10 minutos", ocorrido na partida Palestra Itália 2 x 3 Internacional, válida ainda pelo primeiro turno. Por erro de cronometragem, o jogo foi encerrado aos 35 minutos do segundo tempo. Uma grande polêmica se estabeleceu: deveria se anular o jogo ou se jogar os 10 minutos restantes? A primeira hipótese foi rejeitada por 6 a 4 numa reunião da APEA, com o Paulistano, maior interessado na derrota do Palestra, votando contra, é claro. Pela segunda possibilidade houve cinco votos a favor e cinco votos contra. Coube ao presidente da entidade, Benedito Montenegro, o voto decisivo, e ele resolveu manter o resultado do jogo. Não se pode afirmar que o Verdão ficou fora do páreo por causa daquela derrota, mas como terminamos o Campeonato Paulista apenas um ponto atrás do Paulistano, bem que poderíamos ter empatado ou até virado aquela partida contra o Internacional e nos sagrado bicampeões. De qualquer forma, o sorriso se estampou no rosto dos palmeirenses ao final da competição, pois foi o Palestra quem impediu que o título paulista daquele ano fosse parar no Parque São Jorge. O Paulistão-21 só foi decidido em sua última rodada, disputada - acredite - na véspera e no dia de Natal. O Corinthians só dependia de suas forças para ficar com a taça, já que liderava a tabela com 38 pontos, um a mais do que o Paulistano e dois a mais do que o Palestra Itália. Ao Paulistano, restava ganhar sua última partida - contra o Sírio - e torcer pelo mesmo time que ajudara a prejudicar no julgamento citado acima. O clube do Jardim América fez a sua parte e, em 24/12/21, ganhou do Sírio por 3 a 2, chegando aos 39 pontos e ultrapassando o Corinthians. No dia seguinte, sua torcida ajudou a lotar o Parque Antártica e fervorosamente torceu pelo Palestra Itália. Movidos principalmente pelo amor à camisa e mais pela rivalidade com os corintianos do que pela raiva dos paulistanos, os jogadores do Palestra disputaram aquele clássico, dirigido por Hermann Friese como se uma vitória lhes valesse o troféu. Tanto empenho surtiu efeito, e o placar final apontou o triunfo palestrino por 3 a 0, com gols de Martinelli, Imparato e Heitor. O título ficou com o Paulistano, e isso não foi muito bom. Mas, por outro lado, também não ficou com o Corinthians. E isso foi bom demais. Obs.: Com a derrota por três gols de diferença, o alvinegro não manteve nem mesmo o segundo lugar, pois foi ultrapassado pelo Palestra Itália no primeiro critério de desempate, saldo de gols: o nosso foi de 58 gols, e o deles, de 57. |
Contar a história de um clube de futebol se transforma, muitas vezes, em um interessante exercício de controle do tempo - às vezes, ficamos vários capítulos a descrever fatos e vitórias de um mesmo período; noutras, embarcamos em uma nave espacial que nos leva, através de um túnel do tempo, anos à frente. E num piscar de olhos.
Isso se dá agora, quando chegamos ao capítulo 17. Como num passe de mágica, atingimos 1924, ano em que o Palestra Itália mais uma vez se viu obrigado a tomar uma decisão antiesportiva, como ocorrera em 1920. Se, naquele ano, como aliás já vimos, ela acabou não se concretizando, o mesmo não aconteceria quatro anos mais tarde
Durante o Campeonato Paulista do referido ano, mais precisamente em 03 de maio de 1924, o Palestra Itália foi derrotado pelo desconhecido Brás por 3 a 2. Até aí, nada de tão anormal, ainda que o resultado tenha sido mesmo surpreendente. Mas o fato é que naquela partida o jogador Nigro foi expulso e posteriormente suspenso por três jogos. Inconformada com a severidade da pena, a diretoria do Palestra resolveu retirar o time da competição, deixando o caminho livre para o tricampeonato do Corinthians.
Tal decisão, porém, não ficou impune. Por ter abandonado o campeonato no ano anterior, o Palestra Itália foi obrigado pela APEA a disputar uma partida seletiva ao Paulistão de 1925. Sabia-se que dificilmente a equipe, devido à estrutura que já possuía, deixaria escapar a chance de voltar ao torneio, mas tal exigência foi mais como um puxão de orelhas dado pela entidade, mesmo que os motivos que tenham levado o Palestra a agir como agiu tenham sido indiscutivelmente claros e justos.
Nosso adversários naquele jogo, o fraquíssimo Independência, estava muito aquém da força palestrina e não opôs nenhuma resistência - foi impiedosamente goleado por 8 a 1, no campo do Floresta, em 08 de fevereiro de 1925. De volta ao Paulistão, o time no entanto não foi muito bem naquele ano, e terminou o torneio apenas na quinta colocação, atrás de São Bento (da Capital), Corinthians, Paulistano e Santos.
Desde que passara a integrar a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), o Paulistano travara com a entidade uma guerra fria, porém declarada. Mesmo quando o título do Campeonato Paulista lhe foi seu, o clube do Jardim Paulista sempre procurou motivos para criar caso, fosse uma arbitragem que julgou prejudicial, fosse qualquer benefício dado a um adversário.
Na verdade, o real objetivo do Paulistano era reinar, absoluto, no futebol paulista. E, ainda que tivesse time e torcida para tanto - basta lembrar que era em seus quadro que atuava Arthur Friedenreich, o maior jogador de futebol do mundo naquela época - o fato é que outros fortes clubes já surgiam, entre eles o nosso Palestra Itália.
Assim, sentindo sua hegemonia se arranhando cada vez mais, em 1925 o Paulistano pediu licença à APEA, no que foi prontamente atendido. O motivo oficial foi a negativa da entidade de registrar um novo jogador, o goleiro Nestor de Almeida, cuja inscrição foi negada devido a problemas contratuais. Mas, na verdade, o que o Paulistano queria era a criação de uma nova Liga de Futebol, tanto que o acompanharam em sua desfiliação outros dois grandes da época: o Germânia e a Associação Atléticas das Palmeiras. Juntos e, claro, sob o comando do Paulistano, estes três clubes criaram a LAF (Liga de Amadores de Futebol), e disputaram um campeonato próprio.
O Palestra Itália, consciente das reais intenções do rival, manteve-se fiel à APEA. E se deu muito bem. Sem o Paulistano, o Germânia e as Palmeiras, a equipe só tinha um grande adversário pela frente: o Corinthians. Mas, naquele ano, nada e ninguém foi capaz de deter a força daqueles italianos.
Para comprovar esta tese, basta verificarmos a campanha final do Palestra Itália: em novo jogos, nove vitórias. Isso mesmo: o aproveitamento palestrino foi de 100%! Confira a nossa campanha:
25/04/26 - Palestra Itália 3 x 0 Auto
16/05/26 - Palestra Itália 5 x 1 Sírio
06/06/26 - Santos 2 x 3 Palestra Itália
20/06/26 - Internacional 0 x 1 Palestra Itália
27/06/26 - Palestra Itália 3 x 1 Ipiranga
01/08/26 - Palestra Itália 3 x 1 Portuguesa de Desportos
15/08/26 - Palestra Itália 3 x 2 Corinthians
29/08/26 - Palestra Itália 5 x 0 São Bento-SP
05/09/26 - Palestra Itália 7 x 1 Sílex
Diante de tais números, tornou-se mesmo inquestionável a conquista do segundo título paulista pelo Palestra itália. Aliás, naquele ano, a equipe teve também o artilheiro da competição, Heitor, que fez 18 gols.
No próximo capítulo, continuaremos a viajar pelo tempo, pela história e pelas glórias do nosso querido clube.
Obs.: Em tempo: adivinhem quem foi o campeão do campeonato organizado pela LAF. O Paulistano, claro.
Guerra é guerra. Assim a Apea, percebendo que começava a perder espaço para a liga concorrente, a LAF, decidiu aumentar de 10 para 14 o número de participantes no Campeonato Paulista de 1927. Com isso, passaram a disputar o Paulistão o Guarani de Campinas, o Comercial de Ribeirão Preto e o Corinthians de São Bernardo do Campo, além do Barra Funda, da Capital.
Este detalhe, claro, aumentou também o grau de dificuldade da competição, principalmente porque outro time do Interior paulista, o Santos, montou naquele ano seu primeiro grande esquadrão, formado por Camarão, Feitiço, Siriri, Araken Patuska e Evangelista. Com estes quatro e mais algumas outras estrelas, como o goleiro Tuffy, o time da Vila Belmiro conseguiu o feito de ser o primeiro esquadrão a atingir a marca dos 100 gols num mesmo Paulistão.
Mas você deve estar se perguntando por que tanto falamos do Santos se esta é a "Nossa História"?. É que em 1927 o Palestra Itália conseguiu algo que repetiria quatro décadas depois, nos inesquecíveis anos 60: foi o único a parar a equipe praiana. Durante o torneio, as duas equipes lutaram rodada a rodada pela liderança, e na penúltima rodada o Palestra estava um ponto atrás do adversário.
Acontece que ao Santos só restava aquele jogo, visto que disputara uma partida fora da data prevista. Assim, tinha o time da Vila 28 pontos contra 27 do alviverde, e portanto bastava-lhe mais uma vitória para garantir aquele que seria seu primeiro título regional. E jogando na Vila Belmiro, a conquista era mais do que certa.
Mas do outro lado estavam os bravos italianos, dispostos a morrer antes de entregar as faixas e a taça de campeão. Em partida que aconteceu já no ano seguinte, mais precisamente em 04/03/28, começamos melhor e fizemos 1 a 0 com Tedesco, cobrando pênalti. Siriri, ainda no primeiro tempo, empatou para os donos da casa. Na etapa final, o Palestra chegou aos 3 a 1 com Lara e Perillo, e quando Camarão descontou para o Santos já era tarde demais - as faixas já estavam sobre as camisas verdes e a taça em nossa sala de troféus. Vale lembrar, também, que ainda perdemos um pênalti, desperdiçado pelo craque Heitor (os gênios também erram).
Porém, cabe a qualquer historiador, a bem da verdade, relatar tudo o que de fato aconteceu, mesmo que alguns detalhes não sejam, assim, muito favoráveis ao seu clube de coração. Portanto, que me perdoe o amigo internauta e palmeirense, mas aí vão dois fatos importantes à conquista de nosso primeiro bicampeonato paulista.
1 - Dias antes do jogo contra o Palestra o craque Feitiço, cérebro da equipe santista, e o goleiro titular Tuffy, por discordarem da arbitragem na final do Campeonato Brasileiro contra a Seleção Carioca, lideraram o abandono de campo por parte do combinado paulista. Isso irritou profundamente o então presidente da República, Washington Luís, que assistia à partida em São Januário, e ocasionou o veto da verba federal para a CBD enviar uma Seleção Brasileira às Olimpíadas de 1928, em Amsterdã, na Holanda. Não se sabe bem por quê, mas a diretoria do Santos resolveu também punir seus dois jogadores, eliminado-os de seus quadros. Ambos não jogaram na decisiva partida do Paulistão e disso o Palestra soube muito bem se aproveitar.
2 - A Imprensa da época foi unânime em ressaltar que o árbitro Antero Camera prejudicou o Santos naquele jogo. Segundo os jornais de então, o pênalti convertido por Tedesco não existiu e, também, houve outro para o Santos - um toque de mão de Bianco - que Camera não marcou.
Como eu, contudo, não estava presente àquela partida, visto que só nasceria 40 anos mais tarde, acho que o árbitro teve uma excelente atuação.
Após a conquista do bicampeonato paulista em 1927, o Palestra Itália passou quatro anos seguidos apresentando boas campanhas, mas não o suficientes para lhe garantir mais alguma faixa de campeão. Assim, os terceiros lugares no Paulistão de 1928, 1929 e 1930 e o vice-campeonato em 1931 mantiveram os alviverdes em lugar de destaque, só que não aquele em que, mesmo ainda tão jovem, o clube já aprendera a estar, naturalmente: o primeiro.
Porém, aqueles anos marcaram a despedida dos quadros esmeraldinos de um craque sensacional, um artilheiro nato, um jogador com faro de gol aguçado e impiedoso com seus adversários. Falamos de Ettore Marcelino Domingues, ou simplesmente Heitor, o primeiro grande craque da história do Palestra Itália.
Na verdade, Heitor chegou ao Palestra quando o clube ainda engatinhava. Em 1917, aquele paulistano contava com 19 anos e já demonstrava nos campos de várzea da então bucólica São Paulo toda a sua qualidade. Assim, quando aportou no Parque Antártica, logo ganhou um lugar no time e, com isso, também um lugar na história do clube.
Ano após ano, Heitor - uma tradução de seu nome, Ettore, do italiano para o português - foi marcando os seus gols. E foram tantos, mas tantos, que ao final de sua passagem pelo Palestra Itália, em 1931 - ou seja, 14 anos depois de ter vestido pela primeira vez a camisa do clube, em 21 de abril de 1917, marcando quatro gols na goleada por 5 a 0 sobre o Internacional, transformou-se até hoje no maior artilheiro da história do clube, fazendo um total de 227 gols.
Na sua época, era apontado como o grande rival de Friedenreich. Com ele, por sinal, formou no ataque da Seleção Brasileira, campeão sul-americana em 1919. Aliás, foi após um rebote de uma cabeçada de Heitor que Fried, o Pelé da época, marcou o gol do empate com o Uruguai por 2 a 2, em 25 de maio daquele ano, nas Laranjeiras, que valeu o título de campeão sul-americano ao Brasil.
Heitor já tinha 33 anos quando fez sua última partida pelo Palestra Itália. E o resultado não foi nada agradável: perdemos por 4 a 0 para o São Paulo da Floresta, em 6 de dezembro de 1931. Depois, teve uma rápida passagem pelo SC Americano e encerrou sua carreira.
A vida de um clube é feita também pela vida de seus craques. Ettore, ou Heitor, foi um deles, sem dúvida um dos maiores deles.
Você gosta de Política?
Independentemente de sua resposta, o fato é que ela faz parte de nossas vidas,
quer queiramos e gostemos disso ou não. Na vida de um clube de futebol, que
normalmente movimenta paixões por onde passa, a Política costuma se fazer
presente em vários momentos. No caso do Palestra Itália, ela acabou
influenciando em muitas ocasiões e em especial, no ano de 1932, acabou
contribuindo de forma decisiva na conquista do título do Campeonato Paulista
daquele ano.
Ocorre que em 1932 o Brasil estava em ebulição. Getúlio Vargas liderava
movimento que tentava pôr fim à chamada "Política do Café-com-Leite", que
alternava políticos paulistas e mineiros na presidência da República. Tal
postura, claro, não agradou a todos, e por isso uma revolução acabou acontecendo
em nosso País. Foi o que se chamou de Revolução Constitucionalista.
Devido a este problema, o Paulistão, que seria disputado em sistema de pontos
corridos e em dois turnos, teve de ser interrompido ainda em seu primeiro turno.
De 3 de julho a 6 de novembro, a bola não rolou nos gramados paulistas. Mas isso
não fez muita diferença para o Palestra Itália, que tanto antes quanto após a
parada manteve uma campanha impecável.
Campanha que, por sinal, não teve um único senão. O time venceu as 11 partidas
que disputou, ou seja, teve um aproveitamento de 100%. O ataque e a defesa foram
os melhores da competição, respectivamente com 49 gols feitos e 8 sofridos. Na
média, é o mesmo que dizer que o Verdão fez 4,45 gols por jogo e levou apenas
0,72 por partida. Alguns resultados, por sinal, foram bastante significativos,
como as goleadas de 7 a 0 sobre o Atlético Santista, 9 a 1 no Germânia e 8 a 0
diante do Santos.
O grande destaque daquele time foi um dos maiores atacantes palestrinos/palmeirense
de todos os tempos, Romeu Pelicciari. Foi ele o artilheiro do Paulistão de 32,
com 18 gols, e o maior responsável pela excepcional e inesquecível campanha
alviverde.
A grande fase palestrina, porém, estava apenas começando. Nos próximos capítulos
de Nossa História, você saberá por quê.
No capítulo 14 de "Nossa História", pudemos relembrar como foi a aquisição do Parque Antártica pelo Palestra Itália. Vimos que em 27 de abril de 1920 a Companhia Antarctica Paulista vendeu o terreno da Água Branca por "salgados" 500 contos de réis, uma verdadeira fortuna para a época.
Ser dono de seu próprio local de jogos e treinamentos ainda era algo invejável no começo dos anos 30, mas o Palestra Itália, com sua ambição de sempre ser o maior, queira mais. Assim, em 1933, aquele que era o campo de futebol mais bem localizado de São Paulo se transformou no maior e mais bem planejado estádio de futebol do Brasil. A diretoria do clube demoliu tudo o que havia de velho no local e construiu moderna arquibancada de concreto armado, uma maravilha para a época, e com capacidade para 30 mil lugares. E mais: separou o gramado destas arquibancadas construindo um alambrado, o que tornou a segurança de jogadores e árbitro muito maior. No ainda incipiente futebol daqueles anos, tal obra foi considerada uma das mais importantes em todo o País.
A inauguração do "estádio" Palestra Itália se deu no dia 13 de agosto de 1933. Tal data - 13 de agosto - poderia ser encarada com torcer de narizes pelos mais supersticiosos, mas nos deu muita sorte: ganhamos de 6 a 0 do Bangu-RJ, em jogo válido pelo Torneio-Rio-São Paulo que, naquele ano, foi disputado pela primeira vez.
Por falar em Rio-São Paulo, nem é preciso dizer que, só pra confirmar o seu tradicional pioneirismo, o Palestra foi o seu primeiro campeão. E mais: 1933 entrou para a história do futebol brasileiro também por ter sido o ano em que o profissionalismo foi instituído oficialmente por aqui. E, mais uma vez, foi o nosso clube quem primeiro se tornou campeão profissional de futebol, ganhando o título paulista daquele ano. Ser pioneiro, como se vê, é algo intimamente ligado ao Verdão.
Mas estas duas histórias - bem como uma terceira, que não vou dizer qual é mas que tenho certeza de que fará você vibrar de alegria - são assuntos para os dois próximos capítulos de "Nossa História". Espere até lá e vá preparando o fôlego, pois eu prometo: você vai morrer de rir.
E se um palmeirense vai morrer de rir, adivinhe quem vai chorar?
Márcio Trevisan
Até 1933, não existia diferenças entre o futebol que praticavam os operários e
funcionários do comércio nos campos de terra batida e os jogadores que já
naquela época levavam grande público aos estádios. Afinal, tanto os atletas das
várzeas quanto os dos campos gramados eram amadores. Isso, claro, na teoria,
pois era sabido que muitos clubes davam a seus jogadores, principalmente após
vitórias, "agrados" como tecidos, sapatos e trocados para o bonde.
Assim, a instalação do profissionalismo, ainda que muito criticada por muitos,
foi algo natural e, até certo ponto, inevitável. Foi a instalação deste
profissionalismo, aliás, que deu origem à expressão "time grande". É que uma das
exigências para que um clube adotasse tal regime era que ele tivesse uma praça
de esportes com capacidade para a promoção de boas arrecadações. Afinal, de
algum lugar teria de vir o dinheiro para o pagamento dos jogadores. Como vimos
no capítulo anterior de "Nossa História", exatamente naquele ano de 1933 o
Palestra Itália inaugurara o primeiro grande estádio do Brasil, no parque
Antártica. Daí tal pioneirismo mais uma vez Ter sido parte integrante do nosso
clube. Aliás, 1933 entra para a história do Palestra/Palmeiras porque nos deu,
no total, tr6es alegrias.
A APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos) promoveu naquele ano o
Campeonato Paulista com apenas seus oito filiados. A fim de incrementar a
novidade do profissionalismo, a CBD resolveu organizar, também, o primeiro
Torneio Rio-São Paulo que se tem notícia. Mas, ainda incipientes em termos de
regulamento e tabela, acabaram por definir que os jogos entre clubes do mesmo
estado valeriam para os dois campeonatos.
Um absurdo, claro, que todavia acabou aceito por todos os participantes. Aliás,
de São Paulo apenas o fragilíssimo Sírio não fez parte do torneio interestadual,
o qual foi disputado por 12 times, a saber: os paulistas Palestra Itália, São
Paulo da Floresta, Portuguesa, Corinthians, Santos, São Bento e Ypiranga e os
cariocas Bangu, Vasco, Fluminense, América e Bonsucesso.
E o que foi um grande erro terminou por se tornar algo muito positivo para o
Palestra. Com um time fortíssimo e uma campanha exemplar, o time faturou o
titulo paulista e, de quebra, também o do Rio-São Paulo. E melhor: ambos no
mesmo dia. A partida decisiva, que valeu a conquista dos dois campeonatos, foi
contra o São Paulo da Floresta, disputada no dia 12/11/33. O placar,
apertadinho, apenas 1 a 0 - gol de Avelino - valeu contudo para que as faixas de
bicampeão paulista e de campeão do Rio-São Paulo repousassem no peito de nosso
craques. Daí as duas primeiras alegrias.
Mas houve um detalhe, um pequeno detalhe, que deixou a torcida palestrina mais
feliz ainda. Em 1933, nosso maior rival, o Corinthians, foi impiedosamente
goleado tanto no primeiro quanto no segundo turno. Logo na abertura da
competição, em 7 de maio, enfiamos 5 a 1 em pleno estádio Alfredo Schurig, o
Parque São Jorge, com dois gols de Romeu Pelicciari, outros dois de Gabardo e um
de Carazzo.
Mas o melhor ainda estava por vir. Em 5 de novembro, o placar do Parque
Antártica apontou nada menos do que 8 a 0! Isso mesmo: o Palestra esmagou o
Corinthians marcando oito gols num mesmo jogo! Romeu Pelicciari fez a metade
deles, Imparato outros três e Gabardo se contentou em marcar apenas um. Até
hoje, esta a maior derrota da história corintiana, como admite o jornalista e
escritor Celso Dario Ulzelte em seu ótimo "Almanaque do Timão".
Agora que você já soube das três alegrias palestrinas naquele ano de 1933,
responda com sinceridade: qual delas lhe deixou mais feliz?
Márcio Trevisan
A hegemonia do Palestra Itália em termos regionais seguiu indiscutível em 1934. O time, que já era bastante superior aos seus demais concorrentes, ficou ainda mais forte ao se reforçar com dois excelentes jogadores, ambos contratados ao Botafogo-RJ: os irmãos Aymoré (goleiro) e Zezé (médio) Moreira.
A contratação de ambos foi facilitada pelo fato de o alvinegro carioca não abrir mão do amadorismo. E como o profissionalismo, como pudemos ver no capítulo anterior, chegara para ficar um ano antes, o êxodo de jogadores em busca de salários e recompensas, agora oficiais, foi total. Com os dois ex-craques do clube da Estrela Solitária e mais os remanescentes do bicampeonato de 1933, o Palestra deu um passei em campo e faturou o seu primeiro e, até hoje, único tricampeonato regional de sua história.
O título foi obtido de forma antecipada, com uma vitória sobre o Paulista, da Capital, por 3 a 1, no estádio Antônio Alonso, que ficava na Rua da Mooca. Gabardo, Gutierrez e Vicente fizeram os gols palestrinos. A conquista, aliás, só não foi obtida de forma invicta porque no último jogo do campeonato, já com as faixas de campeão no peito, o palestra se viu derrotado pelo São Paulo da Floresta por 1 a 0. Um doce para quem pensou que o gol da vitória foi marcado por Artur Friedenreich.
Mas nem tudo foram flores para o nosso clube naquele ano de 1934. Estávamos em ano de Copa do Mundo, e o Brasil se preparava para a disputa do II Mundial, na Itália. O problema é que a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), entidade que comandava o futebol na época, não aceitou a filiação de qualquer clube que tivesse adotado o regime profissional. Presidida na ocasião por Luiz Aranha, a CBD acabou ficando, contudo, num beco sem saída: não aceitava jogadores profissionais em seus quadros, mas precisava deles para disputar a Copa do Mundo.
Para piorar a situação do órgão, o Palestra Itália era o melhor time do país naquela época e, também, um time profissional, tanto que estava filiado à recém-inaugurada Federação Brasileira de Futebol. A CBD, então, passou a aliciar os jogadores palestrinos, tentando convencê-los a aceitar uma possível convocação. Isso, porém, poderia ocasionar a eliminação do Palestra dos quadros da FBF, o que também era um dos objetivos da CBD. Afinal, se um dos principais filiados fosse expulso do órgão, isso poderia enfraquecer a entidade profissional e, ao mesmo tempo, fortalecer a volta do amadorismo.
A fim de evitar maiores pressões, a diretoria levou nossos jogadores para uma fazenda no Interior paulista, claramente escondendo-os da CBD. O mesmo fizeram outros clubes paulistas, tanto que apenas quatro jogadores que atuavam no Estado disputaram aquele Mundial: Sílvio, Luizinho, Waldemar de Brito e Armandinho, todos do São Paulo da Floresta.
Com uma seleção fraca, o Brasil foi eliminado logo na primeira fase da Copa da Itália. Na verdade, o time disputou um só jogo, perdendo-o para a Espanha por 3 a 1, em Gênova, em 17 de maio daquele ano. A notícia, divulgada pelo rádio, revoltou muitos torcedores, e alguns, mais exaltados tentaram, depredar a sede social do Palestra, que ficava na Praça do Patriarca. Tentaram jogar a culpa pela má campanha do Brasil nas costas do nosso clube, mas não fora somente ele quem negara ceder seus jogadores. Quase todos o fizeram, obedecendo as ordens da entidade à qual era filiados.
Após conquistar o tricampeonato
paulista no ano anterior, o Palestra Itália tinha tudo para garantir mais uma
faixa no Campeonato Paulista do ano seguinte. Afinal, tínhamos o melhor time do
País naquela época. Mas isso acabou não acontecendo principalmente em razão de
brigas políticas que, como estamos vendo nesse passeio pela história do Verdão,
fazem parte do futebol brasileiro desde há muito.
Pois bem. Após toda a confusão formada devido à Copa do Mundo de 1934, como
pudemos ver no capítulo anterior, mais celeuma ainda esperava o ano de 1935. Com
duas entidades a comandar o futebol brasileiro - a CBD e a FBF -, os clubes
passaram a ser aliciados por uma e por outra. O órgão que mais grandes equipes
tivesse em seus campeonatos certamente sobreviveria ao outro.
Seduzidos pela promessa da CBD de organizar jogos e torneios internacionais,
algo que somente ela poderia fazer, os dirigentes do Palestra Itália resolveram
juntar-se à ela. Para tanto, teriam de desfiliar o clube da Apea, que estava
ligada à FBF. E assim se fez: no dia 11 de dezembro de 1934, o clube publicou na
Imprensa um comunicado no qual informava sua desfiliação da entidade paulista
juntamente com o Corinthians. E mais: fundava, sob reconhecimento da CBD, a Liga
Bandeirante de Futebol - LBF.
O motivo oficial da decisão tomada pelos palestrinos, porém, foi outro, como
dizia o texto: "Como o Palestra Itália não conseguiu a pacificação geral, seu
primeiro e melhor escopo, viu-se forçado a reconhecer que contra suas intenções
se erguia uma trama apenas de interesses, que negavam a necessidade de uma
pacificação. Por isso, nada mais resta ao nosso clube senão desligar-se e fundar
a nova Liga. O Palestra, agora mais fortalecido pelo reconhecimento
internacional que doravante terá, propõe-se a lançar-se a seus intransferíveis e
grandiosos empreendimentos. Via o Palestra! Viva São Paulo!".
A tal Liga Bandeirante de Futebol, cujo primeiro presidente, aliás, foi o
palestrino Pedro Baldarassi, mudou seu nome para Liga Paulista de Futebol - LPF
-, pouco depois, em 11 de fevereiro de 1935. Em campo, claro, houve dois
campeonatos: um organizado pela Apea e outro pela LPF. Incentivado pela CBD, os
times da Liga Paulista de Futebol, profissionais, passaram a contratar jogadores
das equipes ainda amadoras. Ao Palestra couberam o goleiro Batataes, o zagueiro
Machado e o médio Nico, que deixaram a Portuguesa.
Estes três reforços, de certa forma, serviram para acalmar um pouco a ira da
torcida, que se inconformara com a saída de craques como Romeu Pelicciari, que
fora para o Fluminense, e Gabardo, que arrumou suas malas, cruzou o Atlântico e
foi jogar no futebol italiano. Mesmo sem duas de suas maiores estrelas, os
palestrinos cumpriram boa campanha naquele Paulistão, disputando palmo a palmo
com o Santos o título. Aliás, o tetracampeonato só não aconteceu porque o
Palestra não conseguiu devolver no Parque Antártica, no segundo turno, a derrota
por 1 a 0 que sofrera, no primeiro, na Vila Belmiro. O empate sem gols manteve o
Santos na ponta e, ao final do torneio, a equipe praiana faturou o título que
não era seu havia 20 anos com aqueles dois pontos que abrira quando da vitória
no primeiro clássico - 20 a 18, respectivamente.
Mas os santistas e todos os outros adversários não perderiam por esperar.
Durante 33 anos, o sistema de disputa
do Campeonato Paulista foi muito simples. Todas as equipes participantes jogavam
entre si, em dois turnos, e no final sagrava-se campeã aquela que mais pontos
somasse. No máximo se disputavam uma ou duas partidas para se conhecer a
vencedora caso duas equipes terminassem empatadas no primeiro lugar.
Apesar de muito justo e de premiar o clube que melhor jogasse durante toda a
competição, este regulamento carregava um grave problema: por volta da metade do
segundo turno, quase todas as equipes já estavam fora da disputa, que se
limitava a dois ou no máximo três times. Isso ocasionava um desinteresse geral
por parte da maior parte da torcida, que deixava de comparecer aos jogos que
nada mais valiam. Em conseqüência disso, muitos clubes passavam a Ter prejuízo
e, num futebol então já profissional, isso era terrível.
A solução encontrada pela APEA, entidade à qual o Palestra Itália voltara a se
filiar, numa prova que desde então os meandros políticos comandavam o futebol,
foi inaugurar uma nova fórmula de disputa. Decidiu-se, então, que o Campeonato
Paulista de 1936 seria disputado em dois turnos, como de praxe, mas que cada um
deles teria o seu campeão. Ambos, então, decidiriam o título numa melhor de
quatro pontos. Desta forma, pouco importaria a uma equipe perder todos os seus
jogos no primeiro turno se no segundo se recuperasse, pois que os pontos, ao
final da primeira etapa, seria zerados e todos os clubes iniciariam o returno
nas mesmas condições.
Foi um sucesso. O afluxo de torcedores aos estádios aumentou consideravelmente,
e pôde ser notado desde a primeira rodada. Nela, disputada em 26 de abril
daquele ano, o Corinthians nos venceu, no Parque São Jorge, por 2 a 1, ponde
desde o início muito fogo naquela disputa. O nosso maior rival manteve a boa
fase durante o turno inicial daquele Paulistão e, após dez jogos, terminou na
primeira colocação, com 20 pontos. O Palestra veio logo atrás, com 16.
Garantidos na final por antecipação, os alvinegros relaxaram no segundo turno,
muito embora uma nova conquista lhes assegurasse a conquista do título sem a
necessidade de jogos finais. Disso souberam muito bem se aproveitar os
palestrinos, que com uma campanha praticamente perfeita – ganharam sete e
empataram três jogos, terminando invictos o returno – faturaram a segunda etapa
do torneio e se garantiram na decisão contra os arquiinimigos.
Acontece que nosso adversário estava mal das pernas e nem em sonho era o mesmo
time do primeiro turno. A prova disso foi a vexatória oitava colocação em que
ficara no segundo, no qual perdeu cinco dos onze jogos que disputou. Já o
Palestra Itália estava embaladíssimo pela conquista e pronto para vestir mais
uma faixa de campeão.
Por problemas no calendário, tais finais só foram ser disputadas em abril e maio
de 1937. No primeiro jogo, disputado em 25 de abril, no Parque Antártica, o
Palestra venceu por 1 a 0, gol marcado as 31 minutos do segundo tempo pelo
atacante Niginho. O gol fio muito contestado pelos corintianos, que alegavam Ter
sofrido falta o goleiro José. A confusão foi tanta que nosso adversário,
preferindo interromper a partida, fugiu de campo. O árbitro Edgard da Silva
Marques não teve outra alternativa senão encerrar o jogo antes do tempo
regulamentar.
Como o resultado fora mantido, a fim de que o Corinthians fosse punido pelo seu
gesto antidesportivo, nosso craques estavam a apenas mais dois pontos, ou seja,
a mais uma vitória da conquista do campeonato. No dia 2 de maio, a Fazendinha,
como já era conhecido o campo do Parque São Jorge, ficou lotada, mas o jogo foi
duro e acabou empatado por 0 a 0, o que obrigou a realização de uma terceira
partida.
Por Ter feito melhor campanha – ganhou, somados os dois turnos, 33 pontos contra
apenas 29 do rival -, ao Palestra Itália coube o direito de realizar o decisivo
encontro em seu campo. Assim, uma semana mais tarde, em 9 de maio de 1937, os
palestrinos entraram em campo com a vantagem do empate, pois que somava três
pontos contra apenas um do Corinthians. A este, a única solução era ganhar
aquele jogo para poder propiciar a realização de uma quarta partida.
Mas nem tal vantagem era capaz de conter nosso bravos atletas. Mal começou o
jogo e Luizinho, logo no primeiro minuto, fez explodir nossa torcida. Impossível
em campo, o Palestra ampliou já aos 13 minutos, com Moacyr. Abobados pela força
adversária, os corintianos só conseguiram diminuir no segundo tempo, com Filó
marcando aos 15 minutos. Mas a vitória e o título já estavam garantidos, e
quando o árbitro Antônio Sotero de Mendonça apitou o fim do jogo mais uma vez
São Paulo foi palco de uma grande festa à italiana.
Após faturar o título de 1936, o
Palestra teve de amargar três anos longe da conquista de um título estadual. E,
pior, foi obrigado a ver três festas seguidas do arquiinimigo Corinthians. Se
tudo isso já não fosse motivo bastante para total desterro, ainda por cima coube
ao Palestra a missão de ser o vice em 1937 e 1939. Em 1938, a campanha foi bem
pior: apenas 4º colocado.
Mas não há mal que sempre dure, e assim chegamos ao ano de 1940. O mundo fervia
na II Guerra Mundial, mas o Palestra e todos os palestrinos, pelo menos até
então, viam-na como todos os brasileiros. Ou seja: algo real, triste, mas
distante, do outro lado do mundo.
Desta forma, a diretoria se preocupava, mesmo, era com a volta ao primeiro
lugar. Para tanto, não só manteve a maior parte do elenco vice-campeão do ano
anterior como também o reforçou com jogadores de grande qualidade, casos por
exemplo do meia Oliveira e do ponta-esquerda Pipi. Del Nero, que atuava mais ou
menos no setor onde jogam hoje os laterais esquerdos, também retornou ao Parque
Antártica.
Em campo, o Palestra construiu aos poucos a sua conquista. Uma vitória aqui,
outra acolá, um pontinho somado nesta rodada, outros dois mais adiante, e
ninguém segurou aquela equipe esmeraldina. Da mesma forma, um famoso estádio
também foi construído aos poucos. Sua obras, por sinal, começaram três anos
antes e, em 27 de abril daquele ano, o Paulo Machado de Carvalho - ou Pacaembu,
como desde muito cedo passou a ser chamado - foi inaugurado.
O amigo leitor pode, agora, se perguntar qual devaneio levou este historiador a
traçar um paralelo entre o Palestra Itália e o campo de futebol. Mas saiba o
amigo que ambos estão intimamente ligados, tal qual fossem frutos de um mesmo
útero. Para começar, coube aos palestrinos a honra de inaugurar aquele que
durante 10 anos seria o maior estádio do País. E, melhor, com uma goleada: 6 a 2
no Coritiba, na partida que antecedeu o jogo entre o Corinthians e o Atlético
Mineiro.
Estas quatro equipes disputaram um torneio comemorativo ao fato, chamado Taça
Cidade de São Paulo. Nem é preciso dizer que, no Domingo seguinte, batemos os
nossos mais tradicionais rivais por 2 a 1 e faturamos o título do torneio. Em
outras palavras: foi o Palestra Itália o primeiro time a desfilar pela pista de
atletismo do Pacaembu com uma taça na mão.
Como é bom ser o primeiro...Mas, às vezes, pode ser melhor ainda ser o segundo.
Estranho? É, parece mesmo. Mas no próximo capítulo você vai entender por que,
dependendo das circunstâncias, ser o segundo pode ser ainda melhor do que ter
sido o primeiro.
Dissemos no capítulo anterior, e creio
que causamos enorme espanto, que às vezes ser o segundo é muito melhor do que
ser o primeiro. E, apesar das aparências, no futebol isso é mesmo possível. Uma
boa prova disso é o Palestra Itália que, primeiro campeão da história do
Pacaembu – ao vencer o torneio que o inaugurou – superou tal façanha ao ser,
naquele mesmo ano de 1940, também campeão paulista no mesmo estádio. Ou seja:
quando levantou a taça pela segunda vez seguida no Paulo Machado de Carvalho, o
time superou a glória anterior e, assim, obter o segundo título foi bem melhor
do que o primeiro.
Mas contemos, de forma resumida, como foi a conquista do 8º título paulista do
Verdão. Disputada em sistema de turno e retorno, a competição marcou desde o
início a dura briga entre Palestra Itália e Portuguesa. Rodada a rodada, as
equipes de ambas as colônias se alternavam na liderança, e isso fez com que o
campeonato ganhasse doses extras de emoção.
O equilíbrio era tanto que o jogo entre os dois clubes, válido pelo primeiro
turno, acabou com vitória palestrina por 3 a 0; e o do segundo turno com vitória
da Portuguesa por 3 a 1. Naquele momento, os dois times estavam empatados com 23
pontos e, desta forma, qualquer tropeço seria fatal a qualquer equipe. E foi o
que aconteceu. No jogo seguinte, a Lusa perdeu para o São Paulo por 2 a 1 e viu
o Palestra, com o empate por 3 a 3 com o SP Railway, ficar um ponto à sua
frente. Daí em diante, coube à equipe dirigida por Caetano de Domênico ganhar
seus jogos e terminar aquele Paulistão três pontos à frente do adversário.
Houve naquele ano de 1940, porém, algo ainda mais importante para o Palestra
Itália. Dentre os craques que se eternizariam na história pela relevante
conquista, um merece destaque especial: Lima. Apesar de muito garoto, tinha
tanto futebol nos pés que logo ganhou ao apelido de "Menino de Ouro". Hábil e
versátil, desfilava seu talento em todas as cinco posições do ataque. Isso
mesmo: naqueles tempos, os times jogavam com cinco atacantes!
Lima começou sua carreira no juvenil do pequeno e desconhecido Progresso
Nacional. Mas lá ficou por muito pouco tempo, pois o Corinthians o levou para
sua equipe. E foi no Bom Retiro que olheiros do Palestra Itália perceberam sua
incrível qualidade e lhe roubaram do arquiinimigo. Lima iniciou, então, sua
trajetória em nosso clube, que começou nos juvenis, passou pela equipe extra,
equivalente hoje à de juniores e também pelo segundo quadro (atualmente chamado
de Aspirantes). Mas não demorou muito tempo para que ele chegasse à equipe
principal e de lá não mais saísse tão cedo.
Aliás, vale lembrar que Lima foi um dos principais jogadores do
Palestra/Palmeiras nos anos 40. Foi, também, um dos líderes da equipe que
conquistou o Mundial em 1951 e permaneceu no Parque Antártica por 16 anos - de
1938 até 1954. Ganhou, além do Paulistão de 1940, também os de 42, 44, 47 e 50,
e mais o Torneio Rio-São Paulo de 51 e a Copa Rio, verdadeiro Mundial
Interclubes, em 1951.
Apesar da alegria que o futebol de Lima provocava, o clima de hostilidade em
razão da II Guerra Mundial aumentava dia a dia. Por isso, não demorou muito para
que o Palestra Itália começasse a sentir na pele o preconceito por ser uma
equipe de origem italiana, como você poderá conferir no próximo capítulo de
"Nossa História".
Lembramos logo nos primeiros capítulos
de "Nossa História" que as guerras mundiais sempre foram parte importante na
vida do Palestra Itália. A primeira, que eclodiu em 1914, por muito pouco não
causou o fim do clube que há apenas alguns meses nascera, já que todos os fundos
que os "oriundi" inicialmente doariam para a nossa fundação passaram a ser
enviados à Cruz Vermelha italiana. Não fosse a ação de homens como Luigi Cervo,
como contamos, e certamente hoje não existiria o Palmeiras.
Mas a I Guerra Mundial não teria uma importância tão grande na vida do alviverde
quanto a segunda. Vítima de um nacionalismo exacerbado e por isso mesmo absurdo,
o Palestra Itália teve que se curvar às pressões e aos escusos interesses
alheios sob pena de, caso resistisse mais do que resistiu, ver seu patrimônio
dilapidado e terminando em mãos indevidas. Antes, porém, de explicar porque a
guerra influenciou a vida do Palestra/Palmeiras, creio ser necessário discorrer
um pouco sobre o conflito.
Em 1942, a Segunda Grande Guerra estava no auge. Havia ameaças de bombardeios em
todos os cantos do planeta, tal a força que tinha a temível Luftwaffe, a força
aérea alemã. O risco era tão iminente que, mesmo em locais em que poucos
acreditavam que bombas pudessem cair, como São Paulo, aconteceram blecautes
propositais. Por determinação do governo, todas as luzes da Cidade, inclusive as
das residências, foram algumas vezes apagadas das 20h00 às 22h00. Tratava-se de
um treinamento: se um bombardeio acontecesse à noite, este ato atrapalharia a
ação do inimigo, que perderia os pontos de referência para os alvos.
Tal atitude só foi tomada em 1942, praticamente três anos após o início da II
Guerra Mundial, porque foi este o tempo em que o Brasil conseguiu ficar "em cima
do muro" da questão. O presidente Getúlio Vargas demorou o quanto pôde para
decidir entre os aliados, liderados pela Inglaterra e pelos Estados Unidos, ou
pelo Eixo, que tinha a Alemanha como estrela principal e a Itália e o Japão como
coadjuvantes de luxo. A relutância entre optar por um ou pelo outro lado, ainda
que a postura nazista deixasse bem claros seus nefastos propósitos, se deu
principalmente por questões econômicas: enquanto não tomasse partido, o Brasil
poderia se valer financeiramente da luta nos dois lados.
Houve, também, a questão política, já que na ditadura em que estava o País
naquela época existiam, entre os políticos de Vargas, simpatizantes do Fascismo
criado pelo líder italiano Benito Mussolini.
Getúlio, desta forma, só decidiu optar pelas forças aliadas quando recebeu uma
pressão do então presidente norte-americano, Franklin Roosevelt: os aliados
precisavam utilizar o litoral do Rio Grande Norte, ponto estratégico na
geografia do conflito, para a construção de bases aéreas e marítimas. Em troca,
cerca de US$ 20 milhões seriam doados para a construção da Companhia siderúrgica
Nacional, a CSN, menina-dos-olhos do então ditador. Se não cedesse seu
território, tal postura seria considerada uma "má vontade" para com os aliados.
Comentava-se até pelos quatro cantos do País, em tom irônico, que se não
atendesse ao pedido dos Estados Unidos o Brasil poderia se tornar mais um
"Quinta Coluna", como ficou conhecido o serviço de espionagem que a Alemanha de
Adolf Hitler espalhou pelo mundo.
Tal pressão surtiu efeito: cedemos Natal para os americanos e, a partir de
então, tornamo-nos inimigos das forças do Eixo. Mas o motivo "oficial" da
entrada brasileira na II Guerra Mundial foi outro: a frota alemã afundara navios
civis brasileiros em nossas águas territoriais e foi este o fato que fez o
Brasil declarar guerra à Alemanha e, por conseqüência, também a seus comparsas.
Com a decisão de enviar tropas à Europa, o Exército brasileiro surpreendeu o
povo, que sempre brincalhão dizia que nossos pracinhas só iriam à luta no dia em
que cobra fumasse.
Teoricamente, o Palestra, apenas um time do futebol brasileiro, nada tinha a ver
com tudo isso, certo? Mas um ato de Getúlio Vargas acabou fazendo nosso clube,
literalmente, entrar na guerra. Através de um decreto-lei assinado em junho de
1942, o presidente obrigava todas as instituições esportivas que tivessem nomes
estrangeiros a mudar suas denominações. Por quê? Ninguém sabia explicar quais as
vantagens que isso daria ao Brasil, mas lei é lei e, pelo menos naquela época,
teve de ser cumprida.
Desta forma, o Germânia passou a ser Pinheiros; o Espanha, de Santos, Jabaquara;
e o São Paulo Railway, Nacional. Até a Portuguesa de Esportes, que não precisava
mudar nada, passou a se chamar Portuguesa de Desportos, se bem que ninguém viu
muita diferença em tal alteração. Havia, naquela época, outros dois Palestra's
Itália no Brasil: um em Belo Horizonte e outro em Curitiba. Estes, claro, também
tiveram de mudar seus nomes, passando a se chamar Cruzeiro o de Minas Gerais e
Coritiba o do Paraná.
Mas a mudança mais traumática foi mesmo a nossa, a do Palestra Itália de São
Paulo, pois que então, sem dúvida, já se tornara um dos grandes do futebol
brasileiro. Houve profunda relutância por parte de diretores, conselheiros e
torcedores em aceitar tal imposição governamental. Só que, no nosso caso, havia
outros "interessados" no fim do Palestra Itália, como você poderá conferir no
próximo capítulo de "Nossa História".
Por mais que se esforçassem, os
dirigentes do Palestra Itália não conseguiam entender por que o governo federal
exigia a mudança do nome do clube. E tinham, cá entre nós, toda a razão. Afinal,
era óbvio que não seria o fato do nosso clube permanecer ou mudar de nome que
faria o Brasil ganhar ou perder a guerra contra as forças do Eixo. Mas a pressão
era tão forte que, em pouco tempo, a equipe passou a ser tratada como inimiga da
Nação. Na verdade, era como se o Palestra tivesse declarado guerra ao Brasil.
Paralelamente às pressões governamentais e populares, eram fortes também os
interesses alheios nesta mudança. Por decisão do presidente Getúlio Vargas,
entidades que não se adaptassem às exigências federais, incluído aí a mudança do
nome, deveriam ficar cientes de que poderiam ter seu patrimônio tomado pelo
Governo que, em seguida, o leiloaria. E foi então que cresceram os olhos de um
dos principais rivais palestrinos da época.
Ainda uma criança, visto que contava apenas 5 anos, o São Paulo já tinha, porém,
objetivos de grandeza, mas para se tornar a potência que sonhava - e que,
diga-se de passagem, conseguiu se tornar - o clube precisava de um estádio de
futebol. A sensação de inferioridade perante a Palestra Itália, Corinthians e
Portuguesa, só para citarmos alguns exemplos, incomodava por demais o Tricolor.
Desta forma, nada mais interessante aos são-paulinos que unir o útil ao
agradável: se não mudasse de nome, o Palestra perderia o Parque Antártica que,
em leilão, certamente acabaria nas mãos do nosso principal rival.
Talvez tenha sido este o principal motivo que levou o então presidente
palestrino, Ítalo Adami, a aceitar a mudança no nome, ainda que isso ferisse,
como já dissemos, o orgulho de cada italiano e de cada brasileiro que, de uma
forma ou de outra, faziam parte do clube. Mas, já que a Nação parecia ultrajada
com o a palavra "Itália", que fosse ela, então, suprimida da denominação do
alviverde. A partir de então, o Palestra Itália passaria a se chamar "Palestra
de São Paulo".
Tudo resolvido? De início pensou-se que sim, mas em pouco tempo se viu que não.
O Governo Federal até que se deu por satisfeito com a mudança, mas como dissemos
havia um outro clube interessado nesta história toda. Ainda de olho no Parque
Antártica, dirigentes são-paulinos lideraram uma campanha popular exigindo
alterações ainda mais extensas em nosso clube. Tinham os tricolores a certeza de
que nossa diretoria não aceitaria mais um absurdo, e que diante da postura que
ela certamente tomaria mais uma vez os governantes do País poderiam tomar nosso
patrimônio e em seguida todo ele passar às mãos são-paulinas.
Para dar uma idéia real do quão ridículo eram os argumentos de nossos rivais,
vale lembrar que toda a tese de ultraje à Nação se devia a dois fatores: o
primeiro à palavra "Palestra", e o segundo à cor vermelha, presente em nossas
camisas ainda que de forma bastante reduzida, e que junto ao verde e ao branco
simbolizavam a bandeira italiana. Pura ignorância: "palestra", na verdade, é uma
palavra que nada tem de italiano e nem mesmo de latim: é, na verdade, um
substantivo de origem grega que significa "local onde se realizam reuniões".
Ou seja: não havia motivo algum para que Adami e sua diretoria aceitassem mais
esta imposição. Contudo, o clima de beligerância contra o Palestra crescia a
cada dia. Várias foram as vezes em que o Parque Antártica se sentiu ameaçado de
invasão e depredação, e aos poucos os homens que comandavam nosso clube
perceberam que não haveria outra saída a não ser mais uma mudança, desta vez
radical. Só isso poria fim à onda de protestos da qual o Palestra Itália vinha
sendo alvo principal.
E assim se fez. Reunidos, nossos dirigentes resolveram tomar duas decisões
radicais: a partir de então, também a palavra "Palestra" deixaria de existir em
nosso nome, assim como o vermelho seria suprimido de nossa camisa. Aproveitou-se
a letra "P", que já existia em nosso símbolo, e se decidiu que nosso novo nome
seria "Palmeiras", numa homenagem a uma antiga equipe que, desde 1914, quando
surgira nosso clube, sempre mantera conosco uma relação de amizade e respeito, a
Associação Atlética das Palmeiras. Sem o vermelho, ficamos apenas com o verde e
o branco, e aí ninguém mais pôde nos acusar de que éramos "inimigos da Nação".
A decisão da diretoria palestrina, então já palmeirense, derrubou os escusos
interesses do São Paulo. Inconformados com a chance que perderam em conseguir
seu estádio e invejosos do sucesso da empreitada alviverde, seus dirigentes e
simpatizantes deram início, então, a um terrorismo contra aqueles que chamavam
de "italianos disfarçados de palmeirenses". E, para piorar ainda mais a
situação, eis que Palestra Itália - ou melhor, Palmeiras - e São Paulo
disputavam ponto a ponto o título do Campeonato Paulista de 1942.
Todavia, os são-paulinos não perderiam por esperar. Teriam a resposta por tudo o
que fizeram no lugar onde o Palestra, então já Palmeiras, sempre obteve seu
brilho maior: dentro de campo. Mas este já é um tema para o próximo capítulo de
"Nossa História".
Obs.: Sempre é bom lembrar que estas fatos ocorreram há quase 60 anos.
Portanto, nenhum membro da atual diretoria do São Paulo Futebol Clube pode ser
responsabilizado pelos atos de seus antecessores.
Em meio a toda a confusão pela mudança
do nome e do uniforme, o Palestra, então já Sociedade Esportiva Palmeiras,
seguia firme na luta pelo título paulista daquele ano. Como vimos anteriormente,
era justamente o São Paulo seu mais direto perseguidor, embora o Corinthians
também seguisse com chances de ganhar o troféu. Eis que o destino, contudo,
resolveu aprontar das suas: justamente quando pela primeira vez atuaria com seus
novos nome e uniforme, o adversário palmeirense seria o Tricolor. E mais: o
vencedor daquele clássico daria um gigantesco passo rumo ao título.
De fato, Palestra – ou melhor – Palmeiras e São Paulo tinham equipes
fantásticas. Nomes como os dos palmeirenses Oberdan, Junqueira, Del Nero,
Waldemar Fiúme e Villadoniga tinham, pelo lado são-paulino, rivais do nível de
Noronha, Luizinho, Waldemar de Brito, Remo, Pardal e, claro, Leônidas da Silva,
o melhor jogador do Brasil naquela época. Por isso, quando da chegada do grande
jogo, em 20 de setembro de 1942, não foi surpresa que ambos os times estivessem
empatados na liderança, com 34 pontos e, portanto, com as mesmas chances de
conquistar o título.
Diante deste quadro, e também inconformados por não terem tido sucesso na
“aquisição” de todo o patrimônio do Palestra Itália, os dirigentes são-paulinos
criaram um clima de guerra para a partida que poderia definir aquele Campeonato
Paulista. Através das rádios e dos jornais, insuflaram durante vários dias seus
torcedores a recepcionarem da pior maneira possível os “traidores disfarçados”,
como nos classificavam, quando entrássemos no gramado do Pacaembu para a grande
decisão. A hostilidade são-paulina era tão grande que até mesmo autoridades
governamentais, como o então capitão do Exército Sílvio de Magalhães Padilha,
chegaram a pedir calma ao corpo diretivo do São Paulo e também a seus
torcedores. Em nota assinada nos jornais, ele dava, entre outras palavras, um
claro recado a quem fomentava a discórdia: “Nem a tolerância descabida, nem o
exagero injustificável”.
O que nosso - na época - frustrado e invejoso adversário não sabia é que o
Palmeiras preparava uma jogada de mestre para pôr fim a todos os planos de
guerra que se armavam contra nós. Adalberto Mendes foi um sergipano, capitão do
Exército, muito ligado ao clube e autor de brilhante estratégia: se a torcida do
São Paulo se preparava para tratar os palmeirenses como se fôssemos italianos,
então provaríamos que nossos corações eram brasileiros. Visando não expor o
elenco a um estado psicológico terrível, ele orientou os jogadores a entrarem no
Pacaembu carregando uma enorme bandeira do Brasil. Adalberto, claro, entraria à
frente dos jogadores.
Assim se fez. Guiados pelo militar, os craques do Verdão calaram o estádio por
alguns instantes assim que pisaram no campo. Embora surpresos diante de tal
quadro, os torcedores demoraram apenas alguns instantes para entender que, à sua
frente, estava uma equipe de origem italiana, sim, porém carregando o Brasil no
peito não apenas naquele momento, mas desde que fora fundada, então há 28 anos.
E as vaias tão esperadas se transformaram, como num passe de mágica, numa
calorosa e extensa salva de palmas.
Mais uma vez, os planos do São Paulo caíram por terra. Agora, só lhes restava
ganhar, esportivamente, dentro do campo. Seria a única maneira de arranhar
aqueles momentos de tamanha soberania alviverde. Mas teria o Tricolor, após ver
naufragar mais uma estratégia, estado emocional para conseguir tão expressivo
feito? Isso você irá conferir no próximo capítulo de “Nossa História”.
Obs.: Sempre é bom lembrar que estes fatos ocorreram há quase 60 anos.
Portanto, nenhum membro da atual diretoria do São Paulo Futebol Clube pode ser
responsabilizado pelos atos de seus antecessores
Mesmo diante de tantas manobras
extra-campo, o fato é que Palestra de São Paulo, nome que adotara desde 27 de
março daquele ano, entrou em campo pela primeira vez como Sociedade Esportiva
Palmeiras em 20 de setembro de 1942 e, assim como o São Paulo, estava pronto
para decidir o Campeonato Paulista. Claro que por mais profissionais que os 22
jogadores fossem, tornou-se impossível não se deixar contagiar pelo que
acontecera nos meses, dias, semanas, horas e, até mesmo, minutos antes do início
daquele inesquecível clássico - de um lado, 11 palmeirenses com os brios feridos
diante das acusações de "traidores"; do outro, 11 são-paulinos ainda estupefatos
frente à recepção dada pela torcida, que lotou as arquibancadas do Pacaembu.
Mas o show deve sempre continuar, e por isso na hora marcada o árbitro Jaime
Janeiro deu início à partida. O Verdão começou com Oberdan; Junqueira e
Begliomini; Zezé Procópio, Og Moreira e Del Nero; Cláudio, Waldemar Fiúme,
Villadoniga, Lima e Echevarrieta. Já o São Paulo entrou em campo com Doutor;
Piolin e Virgílio; Lola, Silva e Noronha; Luizinho, Waldemar de Brito, Leônidas,
Remo e Pardal.
Bola rolando e o Palmeiras começou melhor, criando boas chances de gol e
envolvendo o sistema defensivo do adversário. Tal superioridade ganhou números
aos 19 minutos de jogo, quando o ponta-direita Cláudio abriu o placar para os
alviverdes. Nossa alegria, no entanto, durou pouco tempo, mais exatamente apenas
quatro minutos: aos 22, Waldemar de Brito, que um dia seria o descobridor de
Pelé, empatou o jogo. Mas um lance de infelicidade do zagueiro são-paulino
Virgílio, que aos 43 minutos marcou um gol contra, colocou mais uma vez o
Palmeiras na frente.
Na etapa final o panorama do jogo não se alterou: Verdão e Tricolor continuaram
disputando um emocionante clássico, que viveu mais um gol palmeirense aos 14
minutos, marcado pelo ponta-esquerda Echevarrieta.
Os 3 a 1 no placar desestabilizaram o São Paulo, que via o Verdão pular dois
pontos à frente e praticamente garantir o título. Talvez por isso mesmo o
zagueiro Virgílio se tornou o personagem principal - e negativo - daquela
partida pela segunda vez: aos 19 minutos, ele derrubou violentamente Og Moreira
dentro da área, o que fez o árbitro Jaime Janeiro marcar pênalti. Inconformado,
Virgílio partiu pra cima de Janeiro e, claro, foi expulso.
Com um homem a menos e provavelmente tendo de reverter uma goleada de 4 a 1 nos
mais de 25 minutos que ainda duraria a partida, o São Paulo decidiu protestar de
uma forma no mínimo discutível: simplesmente abandonou o campo. Passados os
minutos de praxe, Jaime Janeiro apitou o fim da partida e se percebeu, então,
que o Palestra morrera líder e o Palmeiras nascera campeão.
Dois detalhes importantes ainda constam na história daquele inesquecível
confronto. O primeiro é que, por não ter disputado o jogo até o seu final, o São
Paulo foi punido pela FPF e não pôde disputar aquele que seria seu último
compromisso pelo campeonato, contra o Espanha (atual Jabaquara). Os pontos foram
para a equipe de Santos. E o segundo é que estava em jogo entre Palmeiras, São
Paulo e Corinthians o título de "Campeoníssimo" - o melhor dentre os três, que
formavam o chamado "trio-de-ferro", ganharia um imponente troféu por parte da
Federação. E como o Verdão faturou o título daquele ano, a taça foi nossa e hoje
se encontra num imponente monumento dentro da Sala de Troféus do clube.
Já tivemos a oportunidade de dizer, em
capítulos passados, que a história de um clube está intimamente ligada à de seus
jogadores. Desta forma, já falamos, nesta mesma seção, de jogadores como Ettore
Marcelino, o Heitor, artilheiro-mor da história verde e branca até hoje, com 227
gols, e também Lima, o “Garoto de Ouro”, maior ídolo da equipe durante muitos
anos.
Desta vez, abriremos espaço para outro jogador que também entrou para a história
palmeirense. Mesmo sem ter a mesma técnica dos dois anteriormente citados, nosso
personagem de agora também desfilou seu talento, que não era pequeno, pelos
nosso gramados. Mas não é apenas e nem principalmente por isso que aparecer
agora em nosso site. Na verdade, o jogador em questão ganhou notoriedade devido
a um fato pitoresco: foi o primeiro negro a vestir a camisa verde e branca. Já
ficou bem claro, agora, que falamos de Og Moreira.
Antes, porém, que as más línguas reputam agora o que diziam há seis ou sete
décadas atrás, é bom deixar bem claro que de racista o Palestra/Palmeiras nunca
teve. Ocorre que, no passado, o futebol não era um esporte popular, tanto que em
seus primeiros anos de vida no Brasil apenas os pertencentes a famílias mais
abastadas o praticavam. Desta forma, não é de se estranhar que o primeiro negro
a jogar pelo Verdão só o tenha feito em 1942, 28 anos após a fundação do clube.
Só a partir dos anos 40 é que o futebol ganhou, de fato, uma atenção redobrada e
passou a mexer com a emoção do brasileiro, independentemente de sua classe
sócio-econômica.
Mas não há como negar, claro, que Og Moreira quebrou um tabu. E, também, que
quando chegou ao clube provocou um torcer de narizes nos mais arraigados,
aqueles que não queriam ver um negro com a camisa verde mais em razão da
tradição do que por puro racismo. Contudo, um jogador prova o seu valor dentro
de campo, e lá este médio (posição que hoje eqüivaleria ao volante) foi senhor
absoluto.
Só para se ter uma idéia do talento deste jogador, vale dizer que seu primeiro
apelido após chegar ao Palmeiras foi “Toscaninho”, numa alusão ao grande regente
Arturo Toscanini. E Og Moreira foi, mesmo, um grande regente daquela orquestra
alviverde, compondo ao lado de Lima uma sinfonia de vitórias durante todo o
tempo em que esteve no Verdão – de 1942, como dissemos, até 1948.
Além de ser um dos maiores nomes de todos os tempos, não se pode deixar de
admitir que foi Og quem abriu as portas para a raça negra em nosso clube. Desta
forma, foi também graças a ele que pudemos ter em nosso time nomes como Djalma
Santos, Djalma Dias, Luís Pereira, Edu, Jorge Mendonça, César Sampaio...
Um clube tem em suas vitórias seus pontos mais costumeiramente relembrados. Existem, aliás, aqueles que defendem a tese de que ao contar a trajetória de um time de futebol deve-se esquecer os tropeços, os pontos negativos, ressaltando-se apenas os momentos em que a equipe em questão mais brilhou. Mesmo respeitando este ponto de vista, este historiador pensa de forma diferente: em sua opinião, vale, sim, lembrar momentos em que por mais que tenhamos nos esforçado não conseguimos chegar aonde sempre queremos e merecemos, pela grandeza de nossa própria natureza – o primeiro lugar.
Desta forma, neste capítulo de “Nossa História” relembraremos o Campeonato Paulista de 1943, o primeiro em que disputamos em sua totalidade com o novo nome – Sociedade Esportiva Palmeiras. Nossa campanha, aliás, foi excelente naquele torneio, e o título só nos escapou na última rodada.
Antes, porém, de falarmos sobre a tal partida, vale lembrar alguns dos craques que faziam parte daquele time. No gol, o eterno Oberdan Cattani seguia sua história no clube; na zaga, Osvaldo, Junqueira, Turcão e Caieira se revezaram nas partidas; Og Moreira foi absoluto na cabeça-de-área, e nas laterais, além dos titulares Brandão (na direita) e Gengo (na esquerda), estiveram também alguns jogadores improvisados, como Dacunto (na direita) e o inesquecível Waldemar Fiúme (na esquerda). Já o ataque, que naqueles bons e saudosos tempos de futebol romântico contava sempre com cinco jogadores, um desfile de feras – Lima, Cabeção, Villadoniga, Peixe, Pipi, Caxambu e até Ministrinho, que retornara da Itália para encerrar sua carreira no clube que tanto amava.
Rodada a rodada, Palmeiras e Corinthians disputavam a liderança da tabela. Aliás, brincava-se na época que para se saber quem seria o campeão paulista teria que se jogar uma moeda: se desse cara, seria o alvinegro o campeão, se caísse com a coroa para cima, o titulo seria verde. Meio que por fora, sem que ninguém lhe desse a devida atenção, aparecia o São Paulo, dono de um ataque de dar inveja a qualquer time – Luizinho, Sastre, Lêonidas, Remo e Pardal.
O campeonato seguia, pois, como antes de seu início se desenhava, com a exceção da surpreendente e um tanto incômoda presença são-paulina. Já ao término do primeiro turno, a vantagem de dois pontos (17 a 15) que o time tricolor abriu em relação a Palmeiras e Corinthians alertou os dois maiores do futebol paulista que, no entanto, acabaram mesmo por sucumbir no turno derradeiro da competição.
E é neste caso que entra uma grande curiosidade, que vira e mexe acaba acontecendo de novo no futebol: na última rodada do Campeonato paulista de 1943, o Corinthians precisou torcer, e muito, pelo Palmeiras. No dia 2 de outubro daquele ano, o time do Parque são Jorge disputou sua última partida pelo torneio, goleando a Portuguesa Santista por 6 a 1. Com o resultado, chegou aos 32 pontos, um a menos do que conseguira o São Paulo e um a mais do que somara o Verdão. Em outras palavras: a única forma do Corinthians continuar vivo no Paulistão era que nossa equipe obtivesse uma vitória no clássico que seria disputado no dia seguinte. Se isso acontecesse, as três equipes terminariam os dois turnos empatadas com 33 pontos, e neste caso o título seria decidido num sensacional triangular.
Não podemos garantir se foi ou não em razão de tão indesejada torcida, mas o fato é que não conseguimos nosso objetivo – e também o deles. Num Pacaembu que muito lembrou o do ano anterior, quando da inesquecível vitória por 3 a 1 e da conquista do título de 42, Palmeiras e São Paulo fizeram um jogo de arrepiar, com lances de gols para ambos os lados. Mas foi mais feliz o Tricolor, que contando com uma estrondosa atuação de King, seu goleiro, segurou o empate por 0 a 0 e, com isso, terminou o Campeonato Paulista com um ponto de vantagem sobre seus dois ferrenhos adversários.
A piada que se seguiu depois não nos é favorável, mas merece ser contada pela inteligência de seu conteúdo. Disseram que, ao ser jogada a tal moeda para se ver quem seria o campeão, se Palmeiras ou Corinthians, ela acabou caindo em pé.
Contudo, a rivalidade entre estes três gigantes do futebol paulista estava apenas começando. No ano seguinte, em 1944, mais uma vez ela veio à tona, e com todo o furor que lhe é característico. Mas este é um assunto que relembraremos no próximo capítulo de “Nossa História”.
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A rivalidade entre dois clubes de
futebol muitas vezes é algo nato, ou seja, faz parte da natureza de ambos.
Um bom exemplo disso é a eterna rixa existente entre o Palmeiras e o
Corinthians. Desde 1917, quando ambos se enfrentaram pela primeira
(vitória alviverde por 3 a 0, com três gols de Caetano), sempre que se
vêem frente a frente faíscas surgem de ambos os lados. |
Um dos mais
antigos ditados populares diz que, muitas vezes, o feitiço se volta contra o
próprio feiticeiro. Em 1944, ao que tudo indica, isso aconteceu. É bem verdade
que não há provas inquestionáveis de que o São Paulo, no caso o bruxo em
questão, tenha incorporado de fato tal personagem, mas que desde sempre sua
força nos bastidores do futebol era reconhecidamente forte, isso ninguém
questionava.
Como lembramos no capítulo passado, o chamado Trio de Ferro lutava arduamente
pelo título paulista de 1944, com mais chances, contudo, para São Paulo e
Palmeiras. Assim, rodada a rodada, ambos os times lutavam pela ponta da tabela,
e o jogo entre ambos marcado para 17 de setembro, válido pelo segundo turno,
poderia se não definir pelo menos apontar o provável campeão paulista daquele
ano.
Antes, porém, de falarmos sobre o clássico, vale o registro de um fato que, por
sorte, não se transformou na maior tragédia da história palmeirense. No dia 13
de agosto, o Verdão vencia o Comercial da Capital por 2 a 0 quando, no início do
segundo tempo, as arquibancadas de madeira situadas atrás do gol de entrada da
Avenida Francisco Matarazzo não suportaram o peso da superlotação e ruíram. Por
sorte, as tábuas desabaram simultaneamente, fazendo com que os torcedores
caíssem sentados sobre as madeiras quando elas atingiram o chão. Este detalhe
amenizou o acidente, no qual apenas quatro palmeirense se feriram e sem
gravidade. A partida pôde ser reiniciada e, ao final, o Palmeiras goleou por 5 a
1.
Passado o susto, o time seguiu sua vida no Paulistão. Como já tivemos a
oportunidade de dizer, naquela época a contagem era feita por pontos perdidos -
se o time ganhasse, não "somava" nenhum ponto, se empatasse, "ganhava" um e, se
perdesse, dois. Assim é que, faltando apenas três rodadas para o fim do torneio,
O Verdão aparecia na ponta, com oito pontos perdidos, vindo bem atrás o São
Paulo, com nove. Esta pequena diferença de apenas um ponto fez aumentar ainda
mais o clima de expectativa para o encontro marcado para 17 de setembro.
Ocorre, porém, que no meio da semana, o recém-criado
Tribunal de Penas da Federação Paulista de Futebol resolveu, surpreendentemente,
suspender o médio Dacunto por um jogo, justamente o decisivo contra o São Paulo.
A explicação: na partida anterior (goleada de 6 a 3 sobre o Juventus, em 10 de
setembro) o jogador palmeirense teria sido advertido pelo árbitro José
Alexandrino. Só que ninguém viu tal advertência, nem mesmo o médio do Palmeiras.
Detalhe: naquele campeonato, Dacunto se transformava em importantíssima peça no
esquema tático palmeirense, e sua ausência no clássico que poderia decidir o
Paulistão se tornara uma ótima para o Tricolor.
Daí as suspeitas de que os dirigentes são-paulinos tivessem "trabalhado" nos
bastidores e feito com que o Verdão ficasse sem um de seus mais importantes
atletas. Como não havia, naquela época, chance de defesa para os jogadores, o
técnico Bianco não teve outra alternativa senão improvisar: recuou um meia
ofensivo para atuar na proteção à zaga. O nome do "sacrificado" era Valdemar
Fiúme.
Mais de 56 mil torcedores abarrotaram o Pacaembu naquela tarde, a maioria
apostando numa vitória do São Paulo e sua conseqüente ascensão ao topo da
tabela. Mas o que ninguém poderia imaginar é que Fiúme fosse se adaptar tão bem
à nova função e, em campo, dar um show, sendo inclusive eleito o melhor homem em
campo. Exercendo uma marcação individual sobre o craque Sastre, o eterno craque
alviverde abriu caminho para que Caxambu, por duas vezes, e Villadoniga,
construíssem o placar de 3 a 1 e "dessem" ao são Paulo mais dois pontos, que o
levaram a somar 11 perdidos e a ficar infinitamente distante do sonhado
bicampeonato. Se o Tricolor usou mesmo de forças extra-campo para tirar Dacunto
da partida decisiva, acabou provando do seu próprio veneno
Com a vitória sobre seu mais direto perseguidor, só coube aos palmeirenses
ganharem as duas últimas partidas - 2 a 0 no Jabaquara, no Palestra, e 1 a 0
diante do Santos, na Vila Belmiro - para garantirem mais um título paulista.
Obs.: Diante de toda a confusão criada pela
suspensão de Dacunto, os torcedores palmeirenses criaram uma interessante
paródia do maior sucesso do Carnaval de 1944. Na marchinha "Eu Brinco", de Pedro
Caetano e Claudionor Cruz, o refrão dizia: "Com pandeiro ou sem pandeiro, eu
brinco!". Já a letra dos palmeirenses ficou um pouco diferente, mas igualmente
criativa: "Com Dacunto ou sem Dacunto, eu ganho!". A galera verde deixou o
Pacaembu e foi às ruas da Capital comemorar a façanha entoando, a todo pulmão, a
música recém-criada.
2001 ficará na história palmeirense
como um ano em que o futebol profissional não conseguiu nenhum título. Para uma
equipe como a do Palmeiras, este fator, claro, é preocupante e serve de alerta,
já que hoje em dia várias são as competições que acontecem anualmente.
No passado, contudo, ficar um ou mais anos sem levantar uma taça não era assim
uma grande problema. Até porque se disputavam, no máximo, dois ou três
campeonatos por temporada – no caso dos clubes de São Paulo o próprio Campeonato
Paulista, a Taça Cidade de São Paulo (nem sempre disputada por todas as equipes)
e o Torneio Início. Hoje extinta, esta competição era, na época, cercada de
muita expectativa e amplamente divulgada pelos órgão de Imprensa.
Para aqueles que são mais jovens e não sabem, ao certo, o que foi o Torneio Início, segue uma pequena explicação: todas as equipes que participariam do campeonato daquele ano se reuniam, num único dia e num único estádio, e disputavam uma competição eliminatória. A fim de que houvesse tempo suficiente para que todos os times pudessem jogar, as partidas duravam apenas 20 minutos, divididas em dois tempos de vinte minutos cada.
Caso não houvesse um vencedor, o clube classificado à etapa seguinte (que acontecia pouco depois) seria aquele que tivesse obtido o maior número de escanteios. Daí a torcida comemorar, naqueles jogos, um tiro de canto como se fosse um gol. Mas, se ainda assim a igualdade permanecesse, a vaga era decidida nos pênaltis. O vencedor ganhava uma taça e esta tinha status de grande conquista. O Verdão é um dos maiores vencedores da história do Torneio Início paulista, com oito conquistas: 1927, 1930, 1935, 1939, 1942, 1946 e 1969 (naquele ano por duas vezes, já que venceu a edição disputada apenas por equipes da Capital e de Santos e, em seguida, a que reuniu também todos os times do Interior).
Eram os bons e velhos tempos do futebol romântico. Tempos em que torcedores de todas as equipes se sentavam, lado a lado, e torciam sem que uma única confusão, por mais simples que fosse, se notasse nas arquibancadas do sempre simpático Pacaembu. Hoje em dia, organizar em algo neste sentido seria utopia e, acima de tudo, um gesto de total irresponsabilidade. Em resumo: a violência das torcidas, independentemente das cores que elas vestem, acabou com uma grande festa do nosso futebol – o Torneio Início.
Mas o que esta história tem a ver com o Palmeiras, afinal de contas personagem principal não só desta seção mas de todas as outras deste site?
É que nos anos de 1946 e 1947 o Verdão praticamente passou em branco no campo das conquistas. Isso mesmo: após ganhar de forma inquestionável o Paulistão de 1944, a equipe não cumpriu grandes campanhas nos dois anos seguintes: em 1945, não passou de um terceiro lugar no Campeonato Paulista, sete pontos atrás do campeão, o São Paulo; em 1946, fomos ainda piores: após o término da competição, ficamos apenas na 5ª colocação, atrás de São Paulo, Corinthians, Portuguesa de Desportos e Santos, pela ordem. O único fator positivo daquele ano foi a conquista da Taça Cidade de São Paulo, após uma saborosa goleada por 4 a 1 sobre o Corinthians, com três gols de Lima, o “Garoto De Ouro”, e um de Gonzales.
Entretanto, numa inconteste prova de que tudo na vida passa, inclusive os momentos ruins, logo em 1947 o que durante dois anos foram apenas sombras transformar-se-iam em luz para os palmeirenses, como poderemos relembrar no próximo capítulo de “Nossa História”.
Se é verdade
que não há bem que sempre dure, também não se pode negar que não há mal que
nunca se acabe. Desta forma, após praticamente passar em branco no campo das
conquistas futebolísticas em 1946, o Palmeiras deu a volta por cima em 1947,
sagrando-se campeão paulista daquele ano.
Antes, porém, de lembrarmos tal conquista e os heróis que a proporcionaram, vale
lembrar um fato interessante: no comando da equipe que naquele ano obteve seu
11º título regional estava ninguém menos do que o jovem Osvaldo Brandão. Isso
mesmo: encerrando prematuramente sua carreira devido a uma malsucedida cirurgia,
aquele que futuramente seria apontado como um dos maiores treinadores da
história do futebol brasileiro e que colecionaria faixas em quase todas as
equipes que dirigiria começou sua carreira de técnico no Verdão.
Mas um treinador, por melhor que seja, precisa de um bom time para ganhar um
campeonato. E não há como não reconhecer o esforço feito pela diretoria
palmeirense, que não poupou esforços na montagem de um grande esquadrão - além
de manter no elenco craques como o goleiro Oberdan Catani, Waldemar Fiúme, Lima
(o "Garoto de Ouro) e Canhotinho, entre outros, ainda o reforçou com estrelas
como o zagueiro Turcão e o atacante Osvaldinho, figuras que compensaram a perda
de jogadores do nível de Villadoniga e Og Moreira, negociados após o término do
Paulistão de 1946.
Logo de cara o Verdão provou que dificilmente perderia aquele campeonato. Foram
nada menos do que oito vitórias consecutivas, nas quais o time foi deixando,
rodada a rodada, seus adversários cada vez mais longe. Como já tivemos a
oportunidade de contar, antigamente a pontuação era feita por pontos perdidos, e
não por pontos ganhos, como acontece hoje em dia. Assim, passadas oito rodadas
do torneio, o Palmeiras seguia com zero ponto perdido, enquanto os demais
grandes - Corinthians, Portuguesa e São Paulo - estavam já bem atrás,
respectivamente com três, quatro e oito pontos desperdiçados.
Tal vantagem e folga na classificação geral deu ao
Palmeiras a tranqüilidade para seguir firme em busca da taça. Para facilitar
ainda mais as coisas, os pontas Lula, pela direita, e Canhotinho, pela esquerda,
davam um show a cada jogo. Lula, aliás, acabou como artilheiro palmeirense
naquele Paulistão, com 16 gols e a apenas três do principal goleador do
certamente, o corintiano Servílio (pai de Servílio de Jesus Filho, que anos mais
tarde se tornaria craque no próprio Verdão).
Numa partida específica, porém, Lula extrapolou. Aconteceu contra o São Paulo,
no Pacaembu, em 17 de agosto de 1947. Naquela tarde, um estádio lotado viu um
grande jogo, que terminou com a vitória palmeirense por 4 a 3. E Lula, exímio
cobrador de faltas, fez três deles desta forma, deixando atônito o bom goleiro
são-paulino Gijo. Por causa da violência com que batia na bola, a partir daquele
jogo Lula ganhou um apelido: Canhão do Parque Antártica.
E assim o Palmeiras seguiu seu caminho, cujo final apontava, sem sombra de
dúvida, para uma grande comemoração. Tal festa, contudo, teve um senão, um único
senão, é verdade, mas que impossibilitou a conquista de mais um Campeonato
Paulista de forma invicta. No jogo em que isso aconteceu, todavia, todos os
torcedores, palmeirenses ou não, levaram um susto ainda maior.
Você vai saber qual foi o senão e também qual foi o susto no próximo capítulo de
"Nossa História".
Como tivemos
a oportunidade de contar no capítulo anterior, a campanha palmeirense no
Campeonato Paulista de 1947 foi quase impecável. Este "quase", claro, se deveu a
uma só derrota, porém extremamente dolorida por duas razões: a primeira é que,
por causa deste tropeço, o Verdão deixou de lutar pela posse transitória da Taça
dos Invictos, uma promoção que o extinto jornal A Gazeta Esportiva fazia todos
os anos; e a segunda, pior ainda, é que a queda se deu exatamente contra o
Corinthians, desde sempre nosso principal rival. Em outras palavras: não fosse
esta derrota e o Palmeiras teria conseguido em 1947 o que conseguira em 1926,
1932 e 1936: ser campeão paulista invicto.
Mas, naquela tarde de 23 de novembro de 1947, os deuses do futebol estavam com
suas costas viradas para os alviverdes. Assim foi que, mesmo tendo uma equipe
amplamente superior, o Palmeiras caiu frente ao arquiinimigo por 2 a 0. Após uma
etapa inicial bastante equilibrada, os 54.128 torcedores que superlotaram o
Estádio do Pacaembu viram, no segundo tempo, o Corinthians chegar à vitória
através dos gols de Servílio (de pênalti) aos 2 e de Cláudio Cristovam de Pinho,
aos 23 minutos.
Houve, porém, um fato inusitado antes do jogo, que deixou
assustados e perplexos todos os torcedores, fossem eles palmeirenses ou não. Sem
que nada fosse avisado, nem mesmo à Imprensa, a Polícia Militar promoveu uma
demonstração sobre o Pacaembu que, devido ao inusitado e ensurdecedor barulho
que ocasionou, por pouco não provocou pânico nas pessoas e, claro, não se
transformou em tragédia.
Sem que ninguém esperasse, de repente surgiu no céu o que na época era chamado
de "autogiro", jamais visto no território nacional e conhecido apenas em fotos
de jornais ou filmes norte-americanos no cinema. O tal "autogiro", claro, é o
que hoje conhecemos por helicóptero.
Não bastasse o estrondo que fazia o aparelho, o piloto ainda por cima resolveu
fazer peripécias com a máquina. Passeou, quase tocando o gramado, de uma meta a
outra, driblou as traves por dentro e por fora do campo e, não contente, ainda
por cima fez o modelo girar, como aliás dizia seu próprio nome, em torno das
bandeirinhas que demarcavam o escanteio. Num misto de admiração e temor, o
público aplaudiu muito o espetáculo, mas não foram poucos os que deram graças a
Deus quando a máquina de novo alcançou os ares e partiu em direção ao Aeroporto
Campo de Marte, onde pousou em plena segurança.
Apesar de tanta emoção, aquele foi o único susto que a torcida palmeirense teve
em todo o Campeonato Paulista. Logo na partida seguinte, o Verdão voltou à sua
rotina de vitória e bateu o Ypiranga, também no Pacaembu, por 2 a 1. O título
acabou sendo garantido com uma rodada de antecedência, numa nova vitória por 2 a
1, só que dessa vez sobre o Santos e na Vila Belmiro, o que deu mais charme e
importância ao feito, claro.
Todo o sucesso obtido pela equipe alviverde em 1947 deixou eufóricos seus
torcedores, que não perderam a chance de eternizar a equipe com uma marchinha de
Carnaval. Mas este já é um assunto para o próximo capítulo de "Nossa História".
Escrever a
história de um time é, invariavelmente, viajar pelo tempo e, conseqüentemente,
adocicar o coração com histórias da época do futebol romântico. Hoje impossíveis
de serem concebidas, dada a violência que toma conta de nossos estádios e que é
a principal razão da preferência do torcedor pelo sofá e não pela arquibancada,
ontem fazia parte do cotidiano do futebol, tornando-o fruto da rivalidade, sim,
mas jamais da insanidade.
Uma prova disso eram as paródias e canções que as torcidas criavam e cantavam
pelos campos. Nas letras, sempre uma pitada considerável de provocação, a fim de
mexer com os brios dos torcedores das outras equipes. Um bom exemplo disso já
tivemos a chance de relembrar, quando falamos sobre o títulos paulista de 1944 -
vitima de uma manobra do São Paulo, Waldemar Fiúme ficou de fora do jogo
decisivo e deu seu lugar a Dacunto. Após a vitória, os palmeirense parodiaram
uma canção chamada "Eu Brinco", de Pedro Caetano e Claudionor Cruz, cujo refrão
dizia: "Com pandeiro ou sem pandeiro, eu brinco!". Já a letra dos palmeirenses
ficou um pouco diferente, mas igualmente criativa: "Com Dacunto ou sem Dacunto,
eu ganho!".
Contudo, nem sempre a criatividade inerente aos brasileiros vinha à tona
motivada por grandes decisões ou polêmicos temas. Às vezes, bastava uma vitória
em um simples amistoso para que novas paródias fossem feitas. Assim foi que,
ainda embalada pela conquista Do Campeonato Paulista do ano anterior, a galera
alviverde trouxe à tona, logo no comecinho de 1948, todo seu "talento musical".
Naquela época, eram comum excursões de equipes estrangeiras ao Brasil. As
argentinas, então, eram imbatíveis neste ponto. Quase todos os anos, os
principais clubes portenhos aqui desembarcavam e realizavam memoráveis jogos em
São Paulo e no Rio de Janeiro. Pois bem: naquele começo de 1948, aqui esteve o
Boca Juniors, a fim de enfrentar Corinthians, São Paulo e Vasco. E, nestes três
clássicos, saiu-se muito bem, vencendo o Tricolor e o clube carioca e empatando
com o alvinegro paulista.
Sua última partida antes do retorno a Buenos Aires, entretanto, não lhe prometia
ser das mais fáceis, já que à sua frente estaria o grande campeão paulista e
todos os heróis da grande e tão recente conquista - o título regional havia sido
garantido em 28 de dezembro de 1947, exatamente apenas m mês e três dias da data
do amistoso. Resultado: embalado por sua torcida, que superlotou o Pacaembu, o
Verdão quebrou a invencibilidade do Boca ao vencê-lo por 2 a 1, gols de Lula, o
"Canhão do Parque Antártica", e Bovio, excelente atacante uruguaio que marcou
época com a camisa verde e branca.
Como estávamos praticamente entrando no mês fevereiro, no qual seria comemorado
o Carnaval, as marchinhas tomavam conta das programações das rádios. Uma delas,
chamada "Mas a mulata é a tal", de Mário Sena, era a grande campeã no gosto
popular, com seu forte refrão - "Loira é loira, morena é morena, mas a mulata é
a tal, é a tal" - estando na boca de todos . Daí que uma paródia para enaltecer
o feito palmeirense e, principalmente, lembrar os torcedores rivais de que
havíamos sido os únicos a bater a forte equipe argentina, tinha mesmo de ser
feita do grande sucesso carnavalesco. Assim, a canção "Mas a mulata é a tal"
acabou se transformando em "Mas o Palmeiras é o tal", cuja letra você confere a
seguir:
Boca é Boca, Vasco é Vasco, mas o Palmeiras é o tal, é
o tal (bis)
Quando ele entra, só se ouve um grito: o campeão é o Periquito!
Quando ele mete um gol, lá vem zunzunzum. E eu, da torcida, grito: mais um!
Palmeiras das tradições! Salve, salve o Campeão dos Campeões (bis)
Se o Lima avança, a linha toda azula. E a turma grita: segura o Lula!
Se vai para a esquerda, fica de colher: e o Canhotinho faz o que quer!
Palmeiras: ninguém agüenta o tranco! Salve, salve o verde e o branco!
Que este singelo verso, puro até se comparado ao que se ouve nos dias atuais,
sirva de exemplo e de incentivo aos torcedores de hoje, transformando em
inofensivos versos as mortais bombas que alguns deles carregam para dentro de
nossos estádios.
Todo palmeirense sabe que nosso time tem quatro títulos brasileiros, ganhos em 1972, 1973, 1993 e 1994. Este tetracampeonato nacional, porém, não deveria ser a única conquista neste nível reconhecida pela CBF, já que no passado aconteceram outras competições que, na prática, tiveram o mesmo peso do Brasileirão – referimo-nos, neste caso, às Taças Brasil, aos Torneiro Roberto Gomez Pedroza, dos quais falaremos mais adiante, e principalmente, ao Título Honorário de Campeão do Brasil, objeto de nosso assunto neste capítulo.
Desta forma, faremos primeiramente uma pequena interrupção na ordem cronológica natural para voltarmos a 1926, quando conquistamos, com apenas 12 anos de vida, nossa primeira faixa em nível nacional. Nos tempos em que o futebol brasileiro ainda era amador, realizou-se uma partida entre os campeões paulista e carioca, desde então as duas maiores forças do futebol verde-amarelo. Como sabemos, nossa equipe tinha garantido, com uma campanha irrepreensível, o título regional da temporada com o aproveitamento de 100% - o Palestra Itália ganhou as nove partidas que disputou, marcando 33 gols e sofrendo apenas oito.
Célebre e inesquecível equipe aquela, que teve em Heitor o artilheiro máximo do certame, com 18 gols que, obtidos em apenas oito jogos (nosso maior goleador ficou de fora de uma partida), lhe dão a excepcional média de 2,25 gols por jogo. Mas o Palestra tinha muito mais do que Ettore Marcelino Domingues: o goleiro Primo, o zagueiro Bianco, o médio-esquerdo Serafini e os atacantes Carrone e Imparato eram as outras estrelas daquele timaço.
E foi com esta constelação de craques que o Palestra Itália, mais uma vez provando seu pioneirismo, faturou aquele que foi o primeiro título em nível nacional disputado no Brasil. Frente a frente com o grande campeão carioca de 1926, o São Cristóvão, goleamos por 3 a 0 e, com isso, já há 76 anos éramos o melhor time do País.
Por motivos que o longo passar dos anos fez questão de esquecer e também não registrar, tal partida entre o melhor de São Paulo e o melhor do Rio de Janeiro só voltou a acontecer 22 anos depois, quando a disputa envolveu o Palmeiras, campeão bandeirante do ano anterior, e Vasco da Gama-RJ, grande time brasileiro da época e que, devido a seu enorme talento, ficou conhecido como “Expresso da Vitória”. Nomes como o do goleiro Barbosa, do meia Jair Rosa Pinto (o famoso Jajá, que pouco tempo depois se tornaria palmeirense) e o centroavante Ademir, entre outros, eram os maiores craques do nosso futebol.
Eis que, pois, o tira-teima foi acertado. No primeiro jogo, disputado no Pacaembu em 7 de janeiro de 1948, o Verdão fez valer os fatores campo e torcida e faturou a equipe carioca por 2 a 1, com gols de Lula, o “Canhão do Parque Antártica”, e Canhotinho. A segunda partida aconteceu em São Januário, estádio de propriedade da equipe cruzmaltina, que também se valeu disso para devolver a derrota – 3 a 1. Nosso gol foi marcado pelo centroavante Bóvio.
Foi preciso que uma “negra” acontecesse, pois estava em jogo a honra de ser a melhor equipe do futebol brasileiro. E a partida em questão foi disputada, novamente, no Pacaembu. Naquela noite de Quarta-feira, 4 de fevereiro, a torcida esmeraldina pôde, mais uma vez, explodir de alegria. Com gols de Lima, o “Garoto de Ouro”, e Arturzinho, o Verdão venceu por 2 a 1 e, assim, colocou mais uma faixa de campeão do Brasil no peito.
Como se vê, na prática o Palmeiras não é apenas tetracampeão, mas sim hexacampeão. E há, ainda, a Taça Brasil, o Robertão, a Copa dos Campeões...
Lembramos no capítulo anterior as duas conquistas do Palmeiras no chamado “Título Honorário Campeão do Brasil”, uma competição que, como vimos, reuniu algumas vezes os ganhadores dos campeonatos paulista e carioca e que, com o passar do tempo, sumiu do mapa. Na história do futebol brasileiro, aliás, várias são as competições que, mesmo desfrutando de enorme prestígio durante mito tempo, depois simplesmente desaparecem, sem mais nem por quê.
Desta vez, vamos lembrar mais uma delas. Chegou a hora de falarmos dela porque, no caminhar frenético de “Nossa História”, havia chegado a hora de falarmos sobre o ano de 1948. Contudo, a verdade é que daquele ano não há muito o que falar: o humilhante sétimo posto na classificação geral do Paulistão explica, por si só, nossa decisão de “ignorarmos” a referida temporada. Já 1949 foi bem melhor, dando-nos o vice-campeonato regional e, com isso, garantindo nossa presença na Taça Cidade de São Paulo do ano seguinte.
Antes, porém, de relembrarmos nossa trajetória no torneio, é preciso explicar o que era a Taça Cidade de São Paulo. A primeira delas, instituída em 1940, foi a única com um número de participantes e regulamento diferentes. Disputado por Palestra Itália, Corinthians, Atlético-MG e Coritiba, o torneio serviu também para a inauguração do Estádio Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu. Claro que o Verdão teria de ser o primeiro a faturá-lo: na primeira partida, goleou o time paranaense por 6 a 2, com três gols do artilheiro Echevarrietta e outros de Elyseo, Luizinho Mesquita e Sandro. Na partida final, outra vitória, sobre o arquiinimigo do Parque São Jorge: 2 a 1, gols de Echevarrietta e Luizinho Mesquita.
A partir de então, a Taça cidade de São Paulo passou a ser disputada sempre pelos três primeiros colocados no Campeonato Paulista do ano anterior. Disputando um triangular simples, geralmente com todos os jogos acontecendo no Pacaembu, sagrava-se campeão o time que mais pontos somasse (ou melhor, o que menos pontos perdesse, já que era este o critério adotado na época). Muitas vezes, cada uma das equipes ganhava um e perdia o outro jogo que disputava, e por não haver critérios de desempate como os atuais (saldo de gols, gols a favor, etc.), iniciava-se novamente a disputa, ignorando-se por completo os resultados da primeira “rodada”. Estranho? Talvez, mas não menos do que acontece hoje em dia, certo?
E a segunda vez que o Verdão faturou o troféu foi em 1945. Num triangular com São Paulo e Corinthians, levamos a melhor: logo no primeiro jogo, batemos o Tricolor por 1 a 0, gol de Gonzáles. Favorecido pelo empate entre os dois rivais (4 a 4), o Palmeiras chegou à decisão contra o alvinegro precisando apenas do empate. Não deu outra: o resultado de 1 a 1 – outro gol de Gonzáles – garantiu a festa verde.
Nosso tricampeonato veio no ano seguinte. Na edição de 1946, oura vez o chamado “Trio de Ferro” foi à luta e, nela, o Verdão se saiu vencedor de forma inquestionável: no primeiro jogo, goleou o Corinthians por 4 a 1 (três gols de Lima, o “garoto de Ouro” e outro do ponta Gonzáles); na segunda partida, uma nova vitória (por 2 a 1), sobre o São Paulo garantiu a festa. Os gols? Um de Mantovani e outro de... Lima, claro.
Chegamos ao ano do objeto de nossa pesquisa neste capítulo: 1950. Nele o Verdão faturou, mesmo diante de maior dificuldade, o tetra da Taça Cidade de São Paulo. Os outros dois participantes foram o São Paulo e a Portuguesa de Desportos (agora já com o nome definitivo). Uma vitória dificílima sobre a Lusa, por 3 a 2, com dois golaços de Jair Rosa Pinto e outro do baixinho Achilles, nos deixou muito perto do título, já que a equipe rubro-verde vencera o Tricolor e, com isso, nos deixava a um empate da festa. Com o regulamento embaixo do braço, seguramos o empate por 2 a 2 – gols de Jair Rosa Pinto e Achilles – e levamos mais uma taça para o Parque Antártica.
A quinta e última conquista alviverde
neste torneio veio logo no ano seguinte, 1951. A novidade foi a presença, ao
lado de Palmeiras e São Paulo, de um “estranho no ninho”: o Santos FC. E não deu
mesmo para a equipe da Vila Belmiro, então longe do time que, uma década depois,
encantaria o mundo: de cara, o Peixe levou de 6 a 2 dos nossos craques – dois
gols de Achilles e um de Rodrigues Tatu, Lima, Liminha, Cilas e Nenê (contra).
Depois, nova derrota para o São Paulo e a decisão estava armada: Verdão e
Tricolor. Nela, um clássico disputadíssimo e uma vitória consagradora: 3 a 2,
com dois de Achilles (aquele, sim, é que era o verdadeiro Baixinho” e outro de
Liminha.
Você deve ter notado que Palmeiras e São Paulo protagonizaram a maior parte das
decisões da Taça Cidade de São Paulo. Mas, se tem acompanhado a “Nossa
História”, também já deve ter percebido que os dois rivais vivem decidindo, ora
com um levando a vantagem, ora com outro dando a volta olímpica. No próximo
capítulo, com a devida permissão dos deuses do tempo, voltaremos um pouquinho no
calendário e relembraremos uma das mais emocionantes decisões entre estas duas
equipes: a do Campeonato Paulista de 1950.
Até lá.